MEMÓRIAS DA RUA HERCÍLIO LUZ (RUA DAS CARREIRAS)

De Sala Brusque Virtual

  • Marlus Niebuhr[1]
Rua das Carreiras
Acervo SAB.
Este artigo pretende valorizar a memória de moradores da Rua Hercílio Luz, que concederam entrevistas durante o ano de 1998, e que foram devidamente arquivadas no Centro de Documentação Oral e memória – CEDOM, do Centro Universitário de Brusque – UNIFEBE[2].

A rua Hercílio Luz, uma das mais tradicionais de Brusque, já teve outros nomes como General Osório e Siqueira Campos. Mas o nome “Carreiras”, ou o mais espontâneo “Rua das Carreiras”, é o nome pelo qual a maioria dos brusquenses refere-se ao local. A denominação não oficial, mas que caiu no gosto popular, tem origem nas antigas corridas de cavalos que eram realizadas na rua. As disputas marcaram a história do local e estavam nas lembranças dos moradores. “Eu nasci depois da época das carreiras. Meus pais me falaram que as corridas eram de mais ou menos uns mil metros”, contou o brusquense Gerald Ulber[3].

As corridas chamavam a atenção, exaltavam os ânimos. Até proprietários de outras localidades traziam seus cavalos para participar. Com disputas acirradas, não raro as competições resultavam em brigas. O interessante é que a cadeia ficava localizada na mesma rua, mas o fato parecia não intimidar os amantes das corridas que insistiam em discussões mais “sérias”. Pelo menos é o que ressaltou a senhora Irma Zinck Müller[4], moradora do local desde seu nascimento, em 1914, assim relatou: “Ocorriam muitas brigas nas corridas de cavalos. Diziam que o juiz roubou, aí o pau comia. Chegavam até a puxar arma e tudo. E depois tem essa, o alemão gosta de cerveja e geralmente naquela altura eles estavam tomados”.

Acerca do casarão enxaimel onde ficava localizada a cadeia, necessário se destacar que anteriormente localizava-se ali a “Casa da Imigração”, local de recepção e hospedagem dos imigrantes que iniciaram a colonização do Vale do Rio Itajaí-Mirim em 1860. De acordo, com o Sr. Oscar Willrich[5], seu avó, veio da Alemanha e quando chegou ao Brasil foi morar na rua das Carreiras: “Ele comprou barato naquela época, eu acho que até davam terra...”, destacou o morador. Memórias: divertimentos e sociabilidade.

Como escrever sobre a Rua das Carreiras sem citar o Clube de Caça e Tiro Araújo Brusque? Afinal, a Sociedade é uma das marcas na vida da comunidade. “Quando tinha a Festa do Tiro ao Alvo, vinha um desfile dos atiradores lá do centro até o clube. Escolas, quando desfilavam , também passavam por ali. Essa era uma rua muito importante!”, relatou a senhora Ondina Krieger Voltolini[6].

O brusquense Rudi Fuchs[7] também relembra a Festa dos Atiradores. Segundo ele, o evento era muito famoso: “Nós podíamos ir ver o tiro ao alvo, tinha baile. Naquela época o desfile vinha do centro para a rua e depois saía dos atiradores e ia para o centro de novo”.

Os bailes, inclusive os de carnaval, aconteciam no Clube Caça e Tiro, vejamos: “Eram feitos três bailes; sábado, domingo e segunda”, relembrou a senhora Irene Schoning Kohler[8]. Ela segue contando que o baile de terça à tarde era para as crianças: “Eu tinha 15 ou 16 anos. Nós fazíamos blocos mas só podíamos ir para o baile com os pais”.

A Páscoa era comemorada no Caça e Tiro. Era uma grande festa, esperada pela comunidade, denominada Schützenfest, foi realizada ininterruptamente desde 1866, declinado somente durante a segunda guerra mundial, quando a sociedade sofreu intervenção policial. Sobre esta festa recordou a senhora Ondina Kriger Voltolini[9]: “Vinham atiradores de todo o Brasil, eles participavam de um torneio com prêmios, troféus. Tinha o tradicional baile de Páscoa. Aqui em Brusque tínhamos a segunda-feira de Páscoa como feriado municipal justamente por causa dessa festa”. A rua das Carreiras tem ainda uma característica peculiar em sua história. Durante o entardecer ou nas primeiras horas da noite, as famílias se reuniam na frente de suas residências, costume guardado carinhosamente na memória da senhora Ondina Kriger Voltolini, que relembrou com saudades: “As casas tinham na frente, na calçada, um banco onde as pessoas ficavam sentadas conversando. Esse costume de bancos, de sentar com as famílias, era bem tradicional na nossa rua”.

Para aprofundar conhecimentos sobre o tema sugerimos a leitura do capítulo - “Bons Tempos aqueles...” Sociabilidades do início do século XX – de autoria de Carlos Eduardo Michel, publicado no livro: “Brusque 150 anos: tecendo uma história de coragem”.

Referências

  1. Historiador, Diretor de Patrimônio Histórico de Brusque.
  2. Agradecemos a Unifebe, pela autorização de acesso aos arquivos do CEDOM.
  3. ULBER, Gerald. Entrevistado em 1998. Brusque, arquivos:CEDOM.
  4. MÜLLER, Irma Zinck. Entrevistada em 1998. Brusque, arquivos:CEDOM.
  5. WILLRICH, Oscar. Entrevistado em 1999. Brusque, arquivos:CEDOM.
  6. VOLTOLINI, Ondina Krieger. Entrevistada em 1998. Brusque, arquivos:CEDOM.
  7. FUCHS, Rudi. Entrevistado em 1998. Brusque, arquivos:CEDOM.
  8. KOHLER, Irene Schoning. Entrevistada em 1998. Brusque, arquivos:CEDOM.
  9. VOLTOLINI, op. cit.
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