José Artulino Besen - O quarto vigário da Freguesia de Brusque

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O 4º VIGÁRIO DA FREGUESIA DE BRUSQUE

PADRE ANTÔNIO EISING (1857-1921)

Pe. José Artulino Besen

Aos menos iniciados na história da comunidade brusquense pouco dirá este nome, ou, quem sabe, apenas soará como um vigário a mais, entre os muitos que passaram pela comunidade Católica.

Mas, certamente, Pe. Antônio Eising representa um papel de destaque na história do berço da fiação catarinense: sua atividade apostólica impregnada de zelo e até de intransigência, a regulamentação das propriedades paroquiais, a construção de igrejas, como a de Guabiruba do Norte e o antigo Santuário de Azambuja, a fundação da Santa Casa de Misericórdia de Nossa Senhora de Azambuja, atual Hospital Arquidiocesano “Cônsul Carlos Renaux”, da Escola Paroquial já lhe dariam um lugar de procedência da galeria dos grandes vultos de nossa comunidade.

Quem foi, em poucas linhas, o Pe. Antônio Eising?

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A 16 de janeiro de 1847, nascia, em Bocholt, Vestfália João Antônio Eising filho do padeiro João Eising. Segundo o costume da época, foi batizado no dia seguinte. Terminados a Escola Primária e o Ginásio, matriculou-se na Universidade de Münster, capital da Vestfália, onde concluiu os estudos filosóficos e teológicos.

Dom João Bernardo Brünckmann ordenou-o sacerdote a 30 de novembro de 1871, com apenas 24 anos de idade.

No dia 2 de abril de 1872 foi nomeado capelão dum distrito da Paróquia de Recklinghausen e reitor de um Colégio anexo à Capela. Por 12 anos dedicou-se com zelo à cura d'almas e ao ensino.

A 10 de dezembro de 1884 é transferido para Münster, onde foi, sucessivamente, 2° e 1° Capelão da Paróquia de São Maurício.

É neste período que cresce nele o interesse pela atividade sacerdotal entre os colonos católicos de origem germânica, no Sul do Brasil, emigrado da Vestfália entre 1861-1863.

O piedoso e zeloso Pe. Guilherme Roer, também ordenado na Diocese de Münster, era o ativo pastor da zona colonial de Teresópolis, Vargem Grande, São Pedro de Alcântara, desde 1860. Segundo seu conselho, um numeroso grupo destes colonos mudou-se para Braço do Norte, na Paróquia de Tubarão, para ocupar a terra fértil daquela região. O Governo Imperial tinha-lhes confiado a ingrata e acidentada terra de São Pedro e redondezas onde pouco tinham a plantar e pouca defesa lhes era oferecida frente as dificuldades da região. Pe. Roer percebeu que o vale de Tubarão era mais fértil e favorável. Ali criaram-se três núcleos com capelas e escolas, e o Pe. Roer ia de Teresópolis algumas vezes por ano, a fim de prestar seu serviço sacerdotal.

O excessivo trabalho, as enormes distâncias, a inclemência do tempo e a idade consumiram as forças do intrépido sacerdote e, doente, impossibilitado de levantar-se, fixa residência na casa da família Hobold, em Braço do Norte.

Nestas condições, mandou uma carta ao Bispado de Münster, pedindo um sacerdote. Começou a missiva com estas palavras: “Miseremini mei, miseremini mei..." Encontrou eco: no dia 21 de maio de 1889, Kirchilches Ampblatt publicou-se a carta, com o resultado de o Pe. Francisco Topp seguir logo para Santa Catarina. Não encontrou mais o Pe. Roer: internado no Hospital de São Francisco, Porto Alegre, ali morreu em 8 de outubro de 1891. Os antigos paroquianos ergueram-lhe, no cemitério, um monumento com os dizeres: “Morreu pelo bem espiritual de seus paroquianos".

O novo missionário, Pe. Francisco Topp, percebeu logo que o território confiado ao Pe. Guilherme Roer era vasto demais. Por sua vez, dirigiu uma carta ao Bispo Diocesano de Münster, reclamando mais um sacerdote. Dom Germano Dingelstadt publicou seu pedido a 14 de novembro de 1890, solicitando que os interessados se apresentassem.

O Pe. João Antônio Eising e seu colega, Pe. Francisco Auling, anuiram logo e a 22 de novembro foram dispensados para o novo trabalho missionário entre os colonos católicos de Santa Catarina.

Pe. Auling foí logo para Curitiba e Pe. Eising fixou residência em Vargem do Cedro, tendo ainda a seu cuidado a população de Capivari. Conseguiu que os Franciscanos de Teresópolis assumissem esta última, pois tencionava mudar-se para a Vila de Brusque, a fim de prestar assistência religiosa aos alemães católicos da região.

- A 18 de agosto de 1892 o Bispo do Rio de Janeiro (de quem dependiam as Paróquias do Estado de Santa Catarina), o nomeia Vigário das Colônias Itajaí e Príncipe Dom Pedro. Substituía o zeloso, mas intempestivo, Pe. João Fritzen. Havia 14 capelas na Colônia, e distantes umas das outras.

Logo no início, devido à separação entre a Igreja e o Estado procurou legalizar a propriedade paroquial: pagou, na Coletoria da então Vila Brusque, a quantia de 69.139 réis por uma área de terrenos com 92.956 m2. O documento foi firmado a 14 de novembro de 1893, assinando-o, como representantes da Comunidade Católica, os Sr.s Nicolau Gracher e Adriano Schaeffer.

No mesmo ano de 1893 inicia a construção da nova igreja de Guabiruba do Norte, demolida em 1923, por sua Vez substituída pela atual: a antiga ameaçava ruir, sendo indigna para o culto.

Em 1894, apenas sete anos após a construção da primeira ermida, pelos colonos, inicia a construção de uma nova igreja em Azambuja, que depois, até 1939, foi o Santuário de Azambuja. Sua visão pastoral descobriu logo que Azambuja estava reservada a ocupar um lugar de relevo na devoção à Mãe de Deus; suas festas de maio já atraíam peregrinos de distantes regiões do Estado. Muitos que anteriormente iam a Iguape, agora detinham-se no pobre Vale de Azambuja, aqui depositando seu agradecimento por favores alcançados.

Acontecimento importante foi a Primeira Visita Pastoral do Sr. Bispo Diocesano. Em 1892 Curitiba fora erigida em Diocese. Seu primeiro Bispo. Dom José Camargo Barros, foi sagrado em Roma a 24 de junho de 1894, tomando posse a 30 de setembro do mesmo ano. Sua Diocese abrangia os territórios do Paraná e Santa Catarina. Resolve logo visitar sua novel Diocese. Brusque preparou-se o máximo para a primeira recepção a um príncipe da Igreja. A 26 de agosto de 1895 uma caravana de cavaleiros foi recepcioná-lo em Nova Trento. Fez o trajeto até Brusque a cavalo, numa viagem de cinco horas! Aqui chegou às 15,00 horas, sendo recebido com aplausos, foguetes e discursos. Durou dois dias e meio sua Visita Pastoral, durante a qual crismou 750 pessoas, além de assistir a inúmeros casamentos.

A 8 de outubro de 1899 dirige uma carta ao Sr. Bispo Diocesano, pedindo licença para comprar o lote n°. 4 da linha Azambuja, uma área de 18.416 braças quadradas, pertencentes ao Sr. Jacob Knihs. Jacob Knihs fazia duas ofertas: toda a Colônia n°. 4, com as casas do proprietário, por seis contos, só... sem o terreno sem as casas, dos contos. Pe. Eising prefere comprar tudo, pois as casas serviriam para principiar logo uma Casa de Caridade. A 27 de outubro do mesmo ano recebe a licença da autoridade diocesana.

Mas a compra não se realiza 1ogo. Pe. Eising compra, antes, para a Paróquia de Brusque, o lote n°. 16 da linha Azambuja pertencente a Pietro Colzani: 30.543 braças quadradas por um conto e duzentos mil réis. Dois anos mais tarde, a 3 de julho de 1902, dá-se a compra do lote n°. 4, com as duas casas nele situadas. Diferentemente do outro 1ote, este tem como adquirente jurídico o Santuário de Azambuja.

Para resolver o problema do lote n°. 16, adquirido pela Paróquia, a 7 de agosto de 1902 o Pe. Eising o vende ao Santuário de Azambuja, representado pelo Pe. José Sundrup. Constituía-se, assim, o “Patrimonium beatae Mariae Virginis de Caravaggio".

Falamos no Pe. Sundrup: a 26 de novembro de 1901 este sacerdote recebia a provisão de coadjutor das Paróquias de Brusque, São Sebastião da Foz do Tijucas, São João e Porto Belo.

Pe. Eising acalentava um plano com relação a Azambuja: vendo o movimento espiritual nela existente_ resolveu reservá-la para ser um centro de piedade e caridade. Centro de piedade já o era. E centro de caridade passa a ser a 29 de junho de 1902, quando dá início à Santa Casa de Mísericórdía Nossa Senhora de Azambuja, abrigando uma Escola Paroquial, um Hospital, um Asilo de Velhos e outro de Órfãos e um Hospício para débeis mentais.

Uma grande obra, iniciada do nada, mas brotada da fé e da caridade cristãs.

Em 1903 vemos surgir outra obra do incansável pastor: a Escola Paroquial de Brusque, que depois deu origem ao colégio Santo Antônio, hoje extinto, mas que tanto bem fez à juventude brusquense.

Pe. Antônio Eising também se salientava pelo zelo pastora1. Admoestava, mesmo na rua, aos fiéis em falta com a desobriga pascal. Amargurava-se profundamente com os casamento mistos.

Fato indicativo é o processo movido contra ele em maio de 1902. Edgar Von Büttner acusa-o de ter retirado convites para um teatro, afixados na barca de transportes que levava a Itajaí. Venceu no tribunal, sendo defendido pelo Sr. Carlos Kraemer, que doou a remuneração recebida como advogado para as obras da Santa Casa. A guerra velada entre ele e o Sr. Edgar von Büttner deverá ter começado, pelo que se pode deduzir em algumas crônicas, pelo fato de terem sido promovidos espetáculos teatrais no Advento, contra isso insurgindo-se os Pes. Eising e Sundrup, sendo por isso acusados de intransigentes e reacionários.

Certamente que os tempos não eram tão fáceis de serem enfrentados, e brigas religiosas, misturadas com política, não eram fáceis de encontrar o ponto de equilíbrio.

Em 1904 Pe. Eising retira-se da Paróquia. Tencionava vestir o hábito de São Francisco. A 24 de outubro ingressa no Convento Franciscano de Rodeio onde, a 12 de fevereiro do ano seguinte, recebe o hábito Franciscano, com o nome de Frei Capistrano Einsing OFM. A 13 ' de fevereiro de 1906 emite os primeiros votos e três anos depois faz sua profissão solene.

Trabalhou em Petrópolis, em Curitiba (atendendo aos fiéis de língua alemã) e novamente em Rodeio, como auxiliar do Mestre de Noviços.

Idade e doença obrigaram-no, em agosto de 1921, a mudar-se para o Convento de Santo Antônio, em Blumenau.

Falece no Hospital Santa Isabel, nesta cidade, com quase 50 anos de sacerdócio e 74 de idade: era o dia 19 de setembro de 1921.

BIBLIOGRAFIA

  • 1 - SUNDRUP, Pe. José: “Chronik der Santa Casa de Misericordia in Azambuja“. Manuscrito.
  • 2 - KOCH, Pe. Eloy Dorvalino: Catolicismo Centenário de Brusque. SAB, 1956. Inédito. P. 7-10.
  • 3 - BESEN, José Artulino: Azambuja, 100 anos. Brusque, 1977. P. 60-70.
  • 4 ,- PEREIRA, Pe. Ney Brasil: História do Santuário de Azambuja. Brusque, 1952.
  • 5 - Livro de Tombo da Paróquia de Brusque, 1.
  • 6 - Jornal O REBATEL, 1953, n°. 920.
  • 7 - SCHOETTE, Frei Estanislau: Carta a Ayres Gevaerd, no Arquivo da SAB, relatando pesquisas, de 13 de abril de 1956.
  • 8 - PEREIRA, Pe. Ney Brasil: *Tópicos de uma Carta“, in O ' MUNICÍPIO, 3 de junho de 1961, n°. 312.
  • 9 - PEREIRA, Pe. Ney Brasil: “Padre Eising, o iniciador“, in O MUNICIPIO, 20 de maio de 1961, n°. 310.

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