Entrevista Ari Pereira - Luiz Gianesini

De Sala Virtual Brusque
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Nosso entrevistado Ari Pereira e sua esposa Salete.

ARI PEREIRA: O entrevistado da semana é o lenhador Ari Pereira; natural de Braço de Camboirú, nascido aos 21.09.44, filho dos saudosos João Antônio Pereira e de Rosa Leopoldina de Jesus Pereira; casado com Salete Vanderline, com a qual tiveram quatro filhos: Leandro, Lucinéia e Lucinei- gêmeos e Ana Maria.; quatro netos: Tainara, Lucas, Mábili e Paulino.

Como foi a sua infância?

Ari Pereira com a junta de bois e o machado, realizando o grande sonho.

Ah, minha infância: caçava – e quando meu irmão caçava eu pegava os pássaros abatidos a funda! – também, pescava e ajudava meus pais no trabalho.

Falando em fundas como eram feitas?

Com folhas de ticum. Colocava na água para curtir e sair a clorofila, entrelaçava algumas folhas e formava o bidóque.


Sonho de criança?

De criança não tive um sonho especial. Pelas dificuldades já sabíamos que iríamos permanecer na lavoura. Na verdade o meu sonho maior era quando casei de ter uma junta de bois e um machado.

E a juventude?

Com 12 anos fui trabalhar em Vidal Ramos, no Stoltenberg. Também, plantava fumo e nas horas de folga era muito namorador, dançava muito, aliás arrastava os pés, pois não era um grande dançador.

Formação escolar?

Nem um segundo de escola; meu saudoso pai dizia que o nosso negócio era trabalhar. Só entrei numa sala de aula para exercer o direito de votar.

Como conheceu a Salete?

Éramos vizinhos em Vidal Ramos, começamos a paquerar, namoramos e noivamos e, em seis meses estávamos casados.

A vida era muito difícil?

Era... e como era... meu pai dizia que nossa vida era trabalho, nada de escola, outra coisa, quando mamãe matava uma galinha, primeiro comíamos a tripa. O carvão fazíamos de pés de silva.

Como era construídas as rodas de carroça?

O eixo era feito de peróba, os aros e as curvas do rodado, eram feitos de garuva e o cuecão, era feito de cedro

Cuecão?

É onde roda o eixo.

Como eram firmados os cabos das ferramentas?

Esquentávamos o ferro onde arrebentava o cabo, deixávamos esfriar e torcia a bananeira para que lí quido corresse no ferro onde era encaixado o cabo e ficava temperado.

Como trabalhavam no mato, o que faziam quando eram picados por cobras?

Quando uma pessoa era picado por cobra, a pessoa picada deveria manter a calma e cortávamos um pé de palmito e dava para a pessoa tomar. Depois passávamos numa benzedeira... tiro e queda. Você sabia que uma pessoa picada por cobra pode tomar um litro de cachaça que não fica bêbada?

Como era controlada a dívida que uma pessoa tinha?

A dívida era contada com bagos de milho e colocada no arreio.


Como não havia medidores, pesadores, como era feito a pesagem ou calculada a compra de alimentos, como por exemplo farinha, carne ?

Farinha era em salaminho: uma caixa de madeira que representava mais ou menos 2 kgs e, uma quarta de farinha era dois salaminhos ou duas caixas de madeira, que correspondia , aproximadamente a 5 kgs e, a carne de boi era metadinha, que correspondia a uma arroba.

E a vida como lenhador?

Eu tive uma junta de bois e um machado, depois uma moto-serra, depois um trator e hoje, tenho um caminhão.

O homem é trouxa não pode ver um rabo de saia?

Muitos homens deixam-se levar pela barriga, quando deveriam usar a cabeça.

A mulher é igual à cegonha, deixa o rico pobre e o pobre sem-vergonha?

Mulher é a primeira, as outras só querem aproveitar-se de você.

Um fato engraçado em sua vida?

Foi no dia em que a filha de meu tio ia casar. Tinha um forno próximo a um bananal. Certo momento o tio disse: “Bia esta na hora de colocar a carne assar”. Eu tinha deitado próximo ao chaminé e quando a carne começou a cheirar, coloquei a mão pelo buraco do chaminé e nisso veio o forno todo abaixo... nossa foi aquele estardalhaço!

Grandes alegrias e tristezas?

Alegrias: o nascimento dos filhos e dos netos. A minha tristeza foi ter passado, quase a metade de minha vida com problemas de saúde.

Se fosse recomeçar faria tudo novamente?

Sim faria.

Como criou os filhos?

Só com orientação... às vezes bravo... nunca surrei... hoje estão melhor do que eu.

E hoje?

Hoje não tem como educar os filhos.

Referências

  • Jornal Em Foco. Edição de 3 de maio de 2011.