Autobiografia do Pastor Johann Anton Heinrich Sandreczki

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AUTOBIOGRAFIA DO PASTOR JOHANN ANTON HEINRICH SANDRECZKI

I

Desejamos destacar nesta nota a notável concordância das memórias do Pastor, no que concerne às suas atividades na Colônia, com os apontamentos feitos por Oswaldo R. Cabral em seu livro "Brusque" e com a síntese histórica do Centenário da Igreja Evangélica em "Brusque" que publicamos em 1965.

O Pastor Sandreczki situa-se na história de Brusque nos tempos coloniais como uma das mais extraordinárias atuações na consolidação, não sómente de sua Igreja como também, e isso é importante, nos destinos da própria Comunidade Brusquense que então se iniciava.

Há pouco a S.A.B. deu início à coleta de dados biográficos não só de brusquenses já desaparecidos como também de contemporâneos. Esses registros servem para julgar, com justiça, a atuação que exerceram na vida comunitária. No trabalho de cada pessoa, homem ou mulher, considerados em conjunto, estão os alicerces de uma Comunidade e devem ser lembrados para exemplo dos pósteros, dando-lhes o destaque que realmente merecem.

Ayres Gevaerd

Auto-biografia do Pastor Heinrich Sandreczki, escrito em setembro de 1909.

(Tradução de José Ferreira da Silva. De uma cópia pertencente à Sociedade dos Amigos de Brusque).

Nasci a 22 de setembro de 1837, em Hermópolis, na ilha grega de Sira.

Meu pai, o Dr. Carlos Sandreczki era de descendência polaca e nascera na Baviera e, ao tempo do rei Otto, esteve a serviço da Grécia como juiz regional em Sira, mas depois entrou para o serviço da "Church Missionary Society" (Sociedade Eclesiástica Missionária) como diretor das Escolas da Sociedade em Sira.

Minha mãe, Jeanette Contouz, a zelosa protetora de minha infância, educada desde sua meninice no estilo alemão, era filha de um francês residente em Munique e que estivera antes a serviço do Duque de Leuchtenberg.

Apesar das poucas ligações com a Alemanha, eu e os meus irmãos, longe dêsse país, fomos educados por meu pai profundamente alemães e eu convivia, além de com meus irmãos, com dois jovens, filhos do Missionário Mildner que também estava a serviço da mesma Sociedade que meu pai.

Meu pai foi o nosso primeiro professor em ciência e religião. Mais tarde êle, de acôrdo com o missionário Mildner, fizera vir da Alemanha um professor ao qual eu e meu irmão Max os dois irmãos Mildner fomos confiados e que prosseguiu na nossa educação.

Meu pai foi transferido para a Ásia Menor e, primeiramente, localizou-se em Budjah, próximo a Smirna e, posteriormente, em Smirna mesma.

Em Budjah, nós, crianças, tínhamos um excelente local de brinquedos e, para as demais ocupações, nos espaçosos cômodos e varandas das grandiosas casas pertencentes à Missão que nós ocupávamos com o Pastor Wolters e que, além disso, eram cercadas de parreiras, árvores frutíferas e outras bonitas plantas, e que nós aproveitávamos ao máximo. O nosso professor era um certo senhor Pokorni.

Dois anos eu vivi, ainda na nova pátria, na casa paterna. Então, meus pais resolveram mandar-me para uma escola na Alemanha e, segundo os planos de meu pai, para estudar medicina.

Como filho de missionário e em consequência da constante leitura dos jornais da Missão Calwer, minha fantasia preferia ocupar-se mais com as imagens da vida de missionário. Isso, entretanto, pouca influência teve então na minha decisão de acatar os desejos de meu pai, relativamente ao meu futuro.

Deixei, portanto, a casa paterna, sentindo dolorosamente a despedida. Meu destino era München. Ali eu deveria ir para a Companhia de meu avô Contouz. Relativamente aos estudos, fui pôsto sob as vistas e a orientação do meu tio, o barão Max du Prel, que era casado com a irmã de meu pai. Eu tomei-lhe grande estima, apesar da rigidez com que era tratado. Ali eu tive também oportunidade de aprender um francês correto.

Frequentar uma escola pública era coisa completamente nova para mim. Dominava ali um sistema pedagógico muito diferente do nosso professor particular Henning em Sira. Entretanto, adaptei-me bem, embora de começo fôsse bastante difícil.

Passado o primeiro ano, o conselho do meu padrinho de batismo, Heinrich von Schubert, eu deveria entrar para um Instituto. Êsse Instituto, em Augsburgo, ao qual estava ligado um curso ginasial, era tido como o melhor para o estudo e a educação. Infelizmente, entre muitos alunos reinavam a rebeldia, a desobediência e o pouco caso por um estudo sério. Senti, então, fortes desejos de regressar a München e o tio Du Prel resolveu mandar-me novamente para um ginásio nessa cidade.

Pouco depois disso, meu pai decidiu o meu regresso ao lar paterno em Jerusalém, para onde êle havia sido transferido pela Missão da Palestina, como secretário da Sociedade Missionária. O seu plano era mandar-me concluir os estudos na Inglaterra. Mostrei-me, porém, pouco interessado em seguir a carreira da medicina, a que êle havia me destinado e, por fim, decidi resistir-lhe.

Estava-me reservada uma direção mais alta.

A 21 de agosto, eu pús os pés no patamar da velha Casa da Missão Basiliense. Por quatro anos e meio fui aluno da Casa e ali recebi grandes benefícios para a minha vida interior e exterior.

A 21 de fevereiro de 1864 fui ordenado em Hürtingen, Würtenberg, pelo decano Sotck. Mas não fui destinado como missionário entre os pagãos, como era meu desejo, mas como pregador para colonos alemães no Brasil.

O govêrno, então ainda imperial, do Brasil, havia se comprometido de manter pastores evangélicos nas suas colônias e a estipendiá-los. E quando, anteriormente, solicitações a êsse respeito, através do Cônsul de Baden, no Rio de Janeiro, já haviam chegado à Sociedade Missionária de Baden, alunos dessa Casa já haviam sido enviados para o Espírito Santo e Santa Catarina. E quando outras solicitação se repetiu no ano de 1864 fomos eu e Hermann Reuther, destinados, êste para Santa Isabel, no Espírito Santo e eu para Itajaí-Brusque, na província de Santa Catarina.

Muito bem preparados pela Casa Missionária, empreendemos, em março do mesmo ano, a viagem para o oeste longínquo, através de Paris e Le Havre. Conosco viajou a senhorita Ana Groben, noiva do pastor Karl Wagner, do Rio de Janeiro. Em Le Havre embarcamos num veleiro que se achava pronto para largar o pôrto sob o comando de um amável francês.

Viagem muito calma levou-nos em 40 dias, 11 dos quais práticamente parados em virtude de calmarias no equador, ao Rio de Janeiro, onde desembarcamos em começos de maio.

(Continua)

II

Fomos amavelmente recebidos pelo pastor Wagner e também cordialmente saudados pelo Cônsul Suiço e diversos componentes da colônia alemã do Rio, bem como pelo diretor da Missão Presbiteriana Norte-americana no Brasil.

A nossa colocação já estava determinada, mas somente depois de algumas semanas a nomeação foi feita. Entretanto, foi-me proporcionada, por essa espera, uma compensação em dinheiro. Finalmente pude empreender a viagem para o lugar do meu destino.

Num vapor costeiro, eu cheguei primeiramente em Desterro, (hoje Florianópolis) capital da Província de Santa Catarina onde fui recebido pelo Sr. Todeschini, um austríaco, diretor da Colônia Teresópolis que dali distava um dia de viagem para o interior, e o qual me induziu a aceitar, provisoriamente, a direção da Comunidade Evangélica dessa mesma Colônia, em orfandade religiosa, o que o Presidente da Província teve que referendar, de vez que eu viera destinado para Brusque.

Assim, eu servi à Comunidade de Teresópolis e à Comunidade vizinha da Colônia Isabel até a chegada do novo pastor.

O pastor Wagner dirigiu as Comunidades, até que foi chamado ao Rio. Também ele procedia da Missionária da Basiléia.

Demorou até começo de fevereiro do ano seguinte a chegada do novo pastor, também um basiliense, Cristovam Tischhauser, mais tarde professor de Teologia na Casa Missionária Pus-me, então, a caminho da minha já impaciente Comunidade de Itajaí-Brusque que me reclamava insistentemente.

Depois de quatro dias cavalgando uma mula, sozinho, ali cheguei de surpresa, sem cantos nem toques de sinos de recepção pública e me apresentei ao Diretor da Colônia, e Barão von Schneéburg um antigo oficial austríaco.

O governo não havia providenciado uma casa paroquial. O diretor havia ocupado a casa prevista para a finalidade durante o tempo em que eu me vira obrigado a manter-me afastado da Colônia. O ativo secretário da Direção, Max von Burowski ofereceu-me, porém, um quarto numa espaçosa casa de solteiro, para meu uso até que eu me transferisse para a casinha que eu construísse no lote que adquiri, muito barato, do governo, e a qual seria paga pela Direção da Colônia em compensação pelos aluguéis que não dispendia com a minha morada.

Deve-se ainda notar que os meus vencimentos, por ano, pelo câmbio americano, importavam mais o menos em 400 dólares. Isso era muito pouco em comparação com os altos preços para os gastos de primeira necessidade, excluindo-se os gêneros alimentícios. Logo depois da minha chegada, eu indaguei a respeito do local para o Serviço Divino da Comunidade Evangélica. Foi-me mostrado um compartimento no antigo, primitivo e tosco rancho de recepção de imigrantes. As paredes do compartimento eram de barro e a cobertura de folhas de palmito. No chão de terra batida, sem assoalho, haviam fincado estacas sobre as quais tabuas serviam de bancos.

Uma mesa grosseira, tendo um acréscimo em forma de tribuna, era a combinação de altar e púlpito.

Os católicos tinham uma capela, embora construída de forma primitiva, mas muito mais digna. Não deveria reinar um espírito muito religioso entre os evangélicos, pois, do contrário, eles teriam já protestado contra local tão indigno do Serviço Divino.

Assim, apesar da minha pouca experiência nas funções, tocou-me a tarefa de fazer a Comunidade volver ao seu fervor religioso.

Era preciso recomeçar tudo quanto se referia a escola e à Igreja.

A colônia existia há cerca de cinco anos. Durante esse tempo, a Comunidade que contava umas 80 famílias, era visitada, de duas a quatro vezes por anos, pelo pastor da vizinha Colônia Blumenau. A Comunidade foi crescendo pouco a pouco, pela vinda de novos imigrantes, até que atingiu 220 famílias, na maioria de Pomeranos. Os primeiros imigrantes eram de Schleswig-Holstein, Birkenfeld (Oldenburg) e badenses. Como o governo estipendiava o pastor, os membros da Comunidade tinham que concorrer apenas com as coletas nos cultos divinos. Por isso, podiam perfeitamente tomar a si a construção de um templo condigno. Tocou a mim despertar os brios da Comunidade nesse sentido. Juntamente com um auxílio do governo, eles reuniram o dinheiro necessário para construir uma igreja digna, embora não suntuosa.

O principal ornamento do altar dessa igreja era uma cópia do quadro “A descida da Cruz”, de Rubens, doado pela imortal rainha da Rússia. O harmônio foi doação da principal sociedade de Stuttgart, da Fundação Gustavo Adolfo. Essa igreja, depois que a Comunidade construiu um novo templo, passou a servir como escola por alguns anos.

Antes que eu prossiga falando em Comunidade e na minha missão, devo referir-me à constituição de minha família.

Durante quatro anos, eu permaneci solteiro e cuidei dos trabalhos caseiros como pude, na minha pequena mas cômoda habitação. A Colônia já possuía um hotel de que era proprietário o amável Senhor Krieger. Ali eu almoçava. Para o café da manhã e a ceia, eu mesmo me arranjava. Mas frequentemente, o secretário Von Borowski, que entretanto, tinha se casado, convidava-me para a ceia.

Ele continuou sendo, por muitos anos adiante, meu vizinho leal.

Para uma família, a minha morada era muito pequena. Por isso, mandei construir mais dois cômodos e uma cozinha separada da casa, conforme o costume brasileiro.

(Continua) (Conclusão)

Auto-biografia do Pastor Henrich Sandreczki, escrita em setembro de 1909.
(Tradução de José Ferreira da Silva, de uma cópia pertencente à Sociedade dos Amigos de Brusque).

O primitivo caminho pelo mato, para minha casa, fôra, nesse meio tempo, aplainado e embelezados o interior da morada e as suas vizinhanças. Mesmo uma dona de casa exigente poderia habitá-la.

O apelo à minha noiva, em Basel, podia ser feito: "Está tudo em ordem. Venha para cá, para ser a minha ajudante e companheira".

E ela veio. Era Elisabeth Groben, irmã da senhora do Pastor Wagner do Rio. Eu fui encontrá-la no Rio de Janeiro. Lá nós nos casamos na igreja evangélica, a 9 de outubro de 1868, celebrando ato o meu cunhado, o Pastor Wagner, em presença das testemunhas, o Pastor Hermann Reuther e o negociante Lutz.

Tão logo minha mulher se refez dos incômodos da travessia do Oceano viajando num vapor costeiro, primeiramente para Desterro, de onde fomos visitar o Pastor Tischhauser, em Santa Isabel. Depois seguiu-se uma viagem de quatro aias, a cavalo, por caminhos melhores, através de matas virgens e campo aberto, uma parte ao longo do litoral, atravessando rios a vau e terrenos alagados.

No quarto dia, ao anoitecer, alcançamos Brusque, onde, na balsa do Itajaí, senhoras da Comunidade nos recepcionaram e acompanharam minha mulher no pequeno trajeto, através da mata, até a nossa casa, cujas janelas já apareciam iluminadas.

Ela foi agradavelmente surpreendida quando, em vez de um rancho grosseiro, como imaginaria, onde mosquitos a atormentariam com as suas ferroadas, pisou a soleira de uma casa assoalhada, coberta com telhas, com janelas envidraçadas, de um lar limpo e bem arranjado.

Isso facilitou-lhe muito o acostumar-se com os hábitos estranhos e suavizou-lhe logo as horas em que, de quando em quando, chorava as saudades da sua querida pátria suíça.

Como, entretanto ela foi, pelos tempos adiante, uma esposa e mãe, fiel, amorosa e dedicada, durante os 21 anos de sua permanência no Brasil!

A Comunidade, como já se disse, havia construído um templo digno. O Culto Divino era bem frequentado. Mas era necessário dar à juventude, além do ensino do catecismo, um espirito verdadeiramente evangélico. Planejei, assim, fundar uma escola da qual eu mesmo seria o professor.

O primeiro sínodo dos pastores evangélicos realizou-se no Rio, a 19 de agosto de 1867. Foi o único durante o meu ministério, em virtude do problema das despesas que deveriam fazer cinco dos pastores, que tinham suas sedes a grandes distâncias.

O sínodo compôs-se dos pastores C. Wagner. do Praeses Chr. Tischhauser, Bernard Pflüger. Johann Bernard Gellerbach, Hermann Reutter e Heinrich Sandreczki.

Esse sínodo reconheceu, já na sua fundação, como tema mais importante, a criação de institutos de ensino evangélicos e o seu desenvolvimento.

Um estabelecimento dessa natureza já existia em Santa Isabel, na Província de Santa Catarina, fundado pelo pastor Wagner e por êle dirigido e, sucessivamente, pelos pastores Tischhauser Zluhan.

O sínodo proporcionou também os primeiros meios financeiros para a construção da escola em Brusque, por intermédio de amigos cristãos de Basel. Os demais fundos eu os recebi da Sociedade Gustavo Adolfo, da Alemanha, da Sociedade de auxílios eclesiásticos de Basel e de muitos amigos cristãos da Alemanha e da Suíça, conforme documenta o relatório referente ao primeiro ano.

Consegui terminar a Construção, que prosseguira vagarosamente e com largas interrupções, visto a receita entrar vagarosamente, depois de quatro anos de muitos trabalhos e dificuldades.

Afinal, em abril de 1872, dei começo às aulas. O começo não foi nada encorajador. Matricularam-se apenas quatro alunos. Os membros da Comunidade preferiam mandar os filhos às escolas públicas, onde o ensino era gratuito, do que pagar mensalidades na minha escola.

Mesmo assim,, sem desanimar nem reclamar comecei as aulas com os quatro alunos. Apesar das desconfianças que se levantaram contra a escola, o número de alunos crescia de mês para mês. O reconhecimento de que, afinal, era ponto de honra da Comunidade apoiar a escola, foi pouco a pouco, elevando o número de alunos até que chegou a 60.

Nos pontos mais distantes da Colônia também fundaram-se escolas particulares. Colonos dedicados mantinham-nas com dificuldades.

O sucesso da minha escola, da qual fui professor durante seis anos, encorajou-me a dar todas as minhas forças no sentido de aumentar-lhe os resultados, sem prejuízo do meu ministério pastoral. Também por parte das autoridades a escola teve o seu reconhecimento. O ensino limitava-se à leitura, escrita, contas, línguas alemã e portuguesa, e canto.

Com o tempo, as minhas forças não me permitiram mais que, além do exercício do meu posto, eu me dedicasse sozinho à escola. Por isso escolhi, para me auxiliar, um dos meus alunos bom e talentoso, Alberto Müller, cujo preparo intelectual passei a incentivar.

Quando mais tarde, eu assumi também a Comunidade da vizinha Colônia Blumenau e para lá tive que me transferir, levei-o comigo como fâmulo e professor particular. Posteriormente, consegui-lhe matrícula no Seminário de Professores de Württemberg, na Alemanha, e lá êle formou-se como professor do ensino superior, com emprego em Berlim.

No andar inferior da Casa da Escola, estava prevista a residência do Professor. O termo da Construção, entretanto. prolongou-se por anos, por falta aos necessários meios.

Por fim pudemos ocupar os belos compartimentos mas apenas por dois anos, pois por esse tempo, verificou-se uma profunda mudança para nós, para a Comunidade e para a Escola. O então diretor da Colônia — isso no ano de 1880 — propusera ao governo, entre outras medidas de economia, a diminuição dos ordenados dos empregados e os meus salários foram significativamente reduzidos. Foi quando a doença e o falecimento do pastor da Comunidade de Blumenau vieram alterar, para melhor, a nossa situação. Eu teria que cuidar também daquela Comunidade e também logo candidatei-me ao lugar vago e o governo me concedeu um aumento de ordenado para cuidar das duas Comunidades, com a condição de que eu passasse a residir em Blumenau.

Para as diversas capelas nos distritos de Blumenau, eu tive, de começo, que oficiar o Serviço Divino em dias da semana, até que pudesse, mais tarde, remover esse inconveniente.

Durante os dez anos seguintes, o meu ministério não foi mais que o de um pregador itinerante. Eu cumpri, entretanto, a minha missão com coragem e confiança, pois, desde criança, eu fora um bom cavaleiro e possuía agora um cavalo excelente e, graças a Deus, gozava de excelente saúde para superar as dificuldades. Assim, no respeitante às condições físicas, não constituía penitência para mim a pregação do Evangelho. Permita Deus que somente bençãos tivessem advindo dessa missão exercida em seu glorioso nome e como trabalho preparatório para o aproveitamento das condições da igreja pela melhoria dos cuidados para a Comunidade e a cura de almas.

Esse melhoramento desenvolveu-se também depois do meu regresso à Europa, com a chamada de diversos outros pastores, para o campo em que eu trabalhava sozinho e que se subdividiu em outros pequenos setores. Na vila de Blumenau ergueu-se a grande e bela igreja construída pelo Governo, situada nu-ma colina. Além dessa, em diversos outros distritos da Colônia, foram construídas, no meu tempo, pelos colonos, quatro outras capelas. Onde não existia capela, faziam-lhe as vezes as salas de escola, onde se realizavam os cultos divinos.

Em agosto de 1880 mudei-me, com a minha família, para Blumenau, onde estabeleci a sede das minhas atividades. Brusque tornou-se uma Comunidade filiada a qual eu visitava mensalmente. Confiei a escola a um eficiente, dedicado e jovem professor, emigrado há muitos anos e que dirigia uma escola no interior e que era estimado por todos. Sob sua direção a escola progrediu. Infelizmente, já há sete anos que faleceu. O seu substituto foi B. Howard, também professor profissional e que, igualmente dedicou-se inteiramente a um abençoado trabalho.

Em Blumenau vivemos, logo depois da nossa mudança, a terrível enchente de 1880. As águas do grande Itajaí subiram, em Blumenau, a 16 metros acima no nível normal e provocaram enormes prejuízos. Felizmente, poucas pessoas perderam a vida.

Blumenau e Brusque recuperaram-se logo dessa catástrofe.

Com o ano de 1892, entretanto, os negócios da Colônia sofreram uma grande mudança. O governo resolvera emancipar a Colônia e a elevação desta à entidade autônoma, com a supressão de todos os funcionários da sua direção e também do pastor que deveria ser estipendiado, daí em diante, pelos próprios colonos. O susto, de começo, foi grande.

Mas logo a população aprendeu a caminhar com seus próprios pés, especialmente com o inesperado auxílio representado pelas muitas e bem pagas oportunidades que foram abertas com a construção de estradas e outros empreendimentos. Os colonos praticavam agora a agricultura de um modo que lhes garantia bons lucros na exportação. Esta era feita, inicialmente, por intermédio do Sr. Asseburg um negociante prudente e empreendedor, que arranjou bons mercados e regulou os meios para a exportação de todos os produtos da pecuária. Também diversas indústrias começaram a surgir em ambas as colônias.

Para mim, porém, a mudança de situação não foi nada favorável. Eu tornara-me, pela emancipação e consequente suspensão dos vencimentos oficiais, um homem independente, tanto em relação ao governo, como em relação às chamadas Comunidades. Deveria, portanto, entender-me, na qualidade de particular, com os membros de cada uma das Comunidades, se estas pretendessem os meus Serviços eclesiásticos.

Gratuitamente, eu ia a dez diferentes lugares para oficiar os serviços divinos domingueiros e em três deles dar doutrina a confirmandos de sorte que a pregação do evangelho não foi prejudicada.

A situação era a seguinte: a população evangélica não queria concordar em fazer comigo um contrato garantindo-me um ordenado fixo. Baseando-se na carestia surgida em conseqüencia da emancipação, entendia que os emolumentos obtidos com a prática dos atos religiosos eram suficientes para a minha manutenção. Esses emolumentos, entretanto, eram muito reduzidos. Eu desejava, entretanto, uma segurança contratual, mesmo desiludindo dos citados emolumentos.

Então eu também era de opinião que a emancipação das colônias significava o seu atraso econômico e pensava consequentemente, em não apresentar nenhuma exigência exagerada.

Com o tempo, entretanto, as coisas seriam outras. E foram, realmente, outras, quando eu notifiquei a minha dispensa de prestação de serviços num distrito de Blumenau que tinha por sede Badenfurt. A Comunidade teve que se organizar e contratar um pastor na Alemanha sob determinadas obrigações contratuais. O primeiro pastor para a circunscrição do Rio do Testo, com sede em Badenfurt, foi Heinrich Runte, da Casa Missionária de Barmen. Então, na comunidade de Rio do Testo, cresceu o interesse pelas coisas da igreja. Eles construíram uma bela casa paroquial em três lugares diferentes foram construídas igrejas.

Esse belo sucesso e bom exemplo serviram de corajoso estímulo.

Por fim a Comunidade da Vila de Blumenau, de comum acordo com as Comunidades do Distrito de Itoupava e de Brusque resolveram assegurar-me o posto. Ficou assentado que eu oficiaria o Serviço Divino de 15 em 15 dias em Blumenau, e cada mês em Brusque. Os demais domingos eu os destinaria às comunidades ainda não organizadas dos demais distritos. Os moradores destes poderiam assistir ao Serviço Divino alternadamente.

Eu celebrava o Serviço Divino em dez distritos: na Vila de Blumenau, na de Brusque e nos distritos da Colônia Blumenau: Itoupava, Velha, Encano, Indaial, Itoupava Norte, Warnow, Ilse-Neisse e Timbó. Essas localidades eram bem distantes umas das outras. Eu ia até elas a cavalo, raramente de carro.

Durante todos os meus 25 anos de ministério no Brasil, apenas uma vez eu tive que transferir o Serviço por me sentir indisposto de saúde.

Meu trabalho foi mais de pregador itinerante, mais um trabalho de pioneiro do que de Cura d'almas numa igreja bem organizada e como único pastor de uma comunidade forte.

O meu campo de trabalho, com uma população de cerca de 4.000 famílias, era grande demais. Cheguei à conclusão de que a minha perseverança ia impedindo um aumento de colaboradores, já que alguns distritos acharam preferível por interesse financeiro satisfazer-se com os meus serviços.

Por isso, amadureceu-me o propósito de denunciar o meu contrato e deixar o Brasil, e em seguida viajar para a Europa.

Encorajou-me mais nessa decisão a promessa de um auxílio por parte da Casa Missionária de Basel, de onde eu havia sido mandado para o Brasil. Além disso, eu esperava encontrar um outro motivo que eu tive para deixar o Brasil: foi uma doença de minha mulher que, na opinião do médico e amigo da família, Dr. Valleton, somente poderia ser resolvida por uma intervenção cirúrgica, que ele recomendou fosse feita na Europa.

Além disso, era preciso cuidar da instrução secundária dos filhos, para o que, naquele tempo não havia oportunidade em Blumenau.

O Distrito de Itoupava propôs-me a direção da Comunidade, pois havia sido decidida a separação daquela Comunidade de Blumenau e a construção de uma igreja e casa paroquial. Eu, entretanto, pude esclarecer a todas as comunidades que estava no irreversível propósito de dar por findo o meu ministério na Colônia e de regressar à Europa.

A surpresa foi grande nas comunidades ainda não organizadas. Lamentou-se a minha decisão e tentou-se dissuadir-me da idéia. Asseguraram-me que estavam muito satisfeitos comigo. Tive que responder-lhes que eu, entretanto, não estava satisfeito com as Comunidades. A minha demissão, disse-lhes, serviria melhor à Comunidades, pois, sendo obrigadas a pedir pastores que viessem da Europa garantidos por contrato, teriam que organizar-se em paróquias.

Ao mesmo tempo eu me ofereci para dirigir-me ao "Comitê para os protestantes alemães no Brasil o qual assumira a incumbência de arranjar pastores para a Diáspora.

Isso de fato aconteceu no correr dos anos e o antigo distrito em que exerci a minha atividade e que, pela crescente imigração, aumentou muito, é hoje servido por cinco pastores.

Durante 25 anos eu exerci o meu ministério, primeiramente nas Colônias Teresópolis e Santa Isabel, e depois de 1865, em Brusque e durante 10 anos .... (1879 — 1889) em Blumenau; batizei 5.120 crianças confirmei 2.215 adolescentes e casei 900 casais. Dos óbitos pude anotar poucos. Nos distritos mais retirados, os professores particulares se encarregavam da encomendação, pois, do contrário, eu estaria a toda hora em viagem. Os casos eram notificados às autoridades. Não pude anotar o número total. Uma comparação entre o número dos nascimentos e o de óbitos dá um contingente muito grande a favor dos primeiros.

Cessaram as minhas relações funcionais com Blumenau e Brusque e eu apresentei a ambos os distritos as minhas especiais despedidas. Mais dolorosa foi a, despedida de Brusque porque lá as relações com os membros da Comunidade haviam se tornado muito íntimas durante os 25 anos de trabalho e pela minha atuação na escola que eu fundara.

Deixamos Blumenau a 21 de agosto de 1889. No pequeno porto de atracação do vapor "Progresso", que nos devia conduzir à cidade portuária de Itajaí aguardava-nos um grande número de moradores da Vila para despedirem-se de nós. Iniciamos a viagem em nove, primeiramente no "Progresso", para Itajaí. Daí seguimos para o Sul, rumo o Desterro (Florianópolis) para lá tomarmos um vapor costeiro, que nos levou para o Norte, para Santos, onde embarcamos no vapor hamburguês "Tijuca".

Em Desterro fomos alvo de cordial recepção por parte do Cônsul Hackradt e do negociante Ebel.

De Santos, a viagem foi feita via Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, com uma única escala européia em Lisboa, até Hamburgo. A viagem durou, desde Blumenau, 42 dias, dos quais 23 sobre o mar e os outros 19 nas estadias nos portos em que o navio permanecia atracado para carga e descarga.

Em todos eles descíamos a terra e encontramos também bons amigos. Foi uma bela e calma viagem em pequena, mas agradável companhia. Na Bahia de Biscaia, ao Norte da Espanha, onde fomos envolvidos por uma cerração muito forte, acidentou-se um barco de dois mastros e afundou. O "Tijuca" abalroava-o, mas a tripulação foi salva.

Aportamos em Hamburgo a 23 de setembro. Dali a meta da nossa viagem era Basel, a antiga pátria da minha querida esposa, onde finalmente chegamos a 27 de setembro. Quase por um ano inteiro pudemos gozar ali de sossego no círculo da Missão de Basel, a cujo comitê pertencia o cunhado Eduardo Preiswerk, e refrescamos as nossas mentes e vida espiritual tão necessitadas disso, depois dos longos anos vividos na mais árida atmosfera espiritual, nas matas brasileiras.

Sentimos, igualmente, fortes desejos de visitar os meus pais e a minha irmã, em Passau. A visita durou apenas quatro sema-nas e serviu-nos de grande alívio, depois de 30 anos de separação.

Era então chegado o tempo de tratar de conseguir uma colocação na Alemanha. As perspectivas não eram muito favoráveis, mas eu devia fazer uma tentativa.

Sucedeu que o Pastor Berner, de Buffalo, também um ex-aluno de Basel, encontrava-se, naqueles dias, em visita à sua velha Pátria e foi até Basel. Ele nos encorajou a que nos decidíssemos a seguir para a América do Norte, onde sempre havia necessidade de pregadores do Evangelho. Tomamos essa decisão.

Dirigi-me imediatamente ao então reitor do Sínodo Evangélico-Alemão, Dr. J. Zimmermann que me respondeu satisfatoriamente e logo me pôs uma colocação à disposição. Acertamos que seguiríamos para a América pelo fim do ano. Teria que esperar, apenas, que minha querida esposa se submetesse à necessária operação cirúrgica, que demorou em virtude da ausência do médico, que fora a um Congresso de Medicina em Berlim.

De regresso, esse médico esclareceu, entretanto, que o restabelecimento da operação exigia prazo demorado e de muito sossego e que devia ser evitada a fadiga de uma viagem a qual só poderia ser empreendida nos começos do ano seguinte.

Ele esclareceu, porém, que a operação poderia ser deixada para mais tarde na América, onde não faltavam médicos competentes.

E como a ida para a América não poderia sofrer maiores delongas, deixou-se de fazer a operação, e a 17 de setembro de 1890, despedimo-nos dos nossos amigos de Basel e viajamos para Bremen, onde a 20 de setembro, embarcamos no "Eider". A 30 de setembro desembarcamos bem dispostos em Nova York.

Durante as primeiras semanas da nossa estada na América, fomos hospedados, cordialmente, pelo cunhado Wilhelm Wackernagel em Allentown, no estado de Pensylvania e por sua esposa, que nós prezávamos muito como madrasta dos filhos da minha irmã Ana, prematuramente falecida, e como a querida "titia" dos meus filhos.

Pouco depois, atendi ao convite do Pastor Berner de ir para Buffalo e lá recebi fraterno acolhimento e grande auxílio.

Comuniquei a minha chegada ao Reitor do Sínodo e recebi recado que deveria submeter-me à eleição na Comunidade urbana de Aurora, N. Y. ou na Comunidade rural de Bennington também no Estado de Nova York. O pastor Berner aconselhou-me tentar em Bennington. E como era também desejo de minha mulher ir para uma Comunidade rural, fiz ali a minha prática de concurso e fui imediatamente eleito, mas só a 23 de novembro de 1890, depois de demorada contemporização, em virtude de melhoramentos na casa paroquial, pude assumir o exercício do novo cargo. A Comunidade era ligada à de Sheldon N. Y., esta como filial. A família somente chegou a Bennington a 4 de dezembro, depois que eu fizera os necessários preparativos e arranjos na casa.

Tornei-me membro de uma grande Sociedade eclesiástica, não ligada ao governo a cujo serviço fui recebido no ano seguinte.

Acostumamo-nos logo aos costumes locais. Os membros da Comunidade, fazendeiros, a elite dos habitantes dali, facilitaram-me a tarefa de manter o espírito cristão e de solidariedade entre eles durante todo o tempo de minha permanência ali.

A 4 de julho de 1892, a família foi ferida do mais duro dos golpes. A fiel e operosa mamãe sucumbiu aos sofrimentos. A morte foi repentina. O médico que chamei às pressas, o Pastor Huber, da vizinha cidade de Attica, que também estudara medicina, pode apenas dizer: “Tua mulher está morrendo...”

A consternação da Comunida de, ao saber da sua morte, foi grande.

Apesar dos seus sofrimentos, ela parecia muito bem e ninguém poderia imaginar quão próximo estava o seu fim.

Com grande participação da Comunidade e da população, a 7 de julho foram feitos a encomendação e o sepultamento. Ela descansa no cemitério de Bennington N. Y.

O tempo do meu ministério em Bennington e Sheldon durou quase 14 anos, quando os meus filhos Otto e Alfredo sugeriram que eu me aposentasse e fosse descansar em Nova York.

O Sínodo deferiu o meu requerimento e eu fui aposentado.

Fiz a minha prática de despedida em ambas as comunidades e a 5 de outubro de 1904 mudamo-nos de Bennington para Nova York.

Depois de quarenta anos de permanência em zonas rurais, devo acostumar-me à vida de cidade.

Passaram-se já cinco anos desde que me aposentei e eu completei, neste mês, os 73 anos de existência com saúde e disposição.

O Senhor fez descer sobre mim as suas graças durante todo o tempo da minha vida, apesar da minha indignidade e da falta de merecimentos. A ele seja amor, honra e gratidão por isso. A sua fé conserve-me o coração e o pensamento em Jesus Cristo até que eu parta para o eterno descanso e para a paz eterna.

Escrito em Nova York em setembro de 1909.

(Johann Anton)
Heinrich Sandrecki
Pastor Emérito

Casa de Brusque