Zantão

De Sala Brusque Virtual

Tabela de conteúdo

Histórico da Comunidade[1]

Minha escola fez 50 anos

  • Divana Dalbosco, Professora da Escola Dr. Carlos Moritz.

A Escola de Ensino Fundamental Dr.Carlos Moritz, em março de 2010, comemorou meio século. Durante o mês de fevereiro e março foi desenvolvido o projeto “Minha Escola faz 50 anos”. Conforme relatou a diretora Tatiane Ventura: “Todo mundo que tinha algo que relacionava com a história da escola, nos procurou para ajudar na exposição”. O projeto teve várias etapas, como entrevistas realizadas nas aulas de Português, no desenvolvimento projeto “Heróis de todos os tempos”; homens e mulheres que trabalharam por 10, 15, 30 anos aproximadamente na escola, relataram um pouco sobre a realidade da escola na época. Assim, por meio dos relatos, fotos, memórias; conheceremos um pouco da história da Escola Dr. Carlos Moritz .

Memórias do bairro Zantão

As memórias aqui relatadas foram coletadas pelos estudantes da Escola Dr.Carlos Moritz. E os textos relatam as pesquisas de campo, as visitas e as entrevistas com moradores.

Vida cotidiana.[2]

“Eu tinha cinco anos quando vim morar no bairro Zantão. Aqui tinha cerca de 30 famílias, que moravam em casas de madeira. As estradas eram estreitas, de barro, com capim nos dois lados. Naquela época não existia televisão, geladeira, pois não existia energia elétrica. Nem supermercado tinha, apenas tinha uma venda que se comprava: charque (carne seca), querosene, sal e peixe. O resto se plantava em casa, como: frutas, verduras, legumes. Também não tinha farmácia, mas plantávamos ervas para fazer os chás. Quando estava doente, fazíamos chá, benzia... Para estudar não íamos à escola aqui, porque não tinha, eu tive que estudar no bairro Águas Claras, e nessa escola só ia até o terceiro ano, se quisesse estudar mais, tinha que estudar no Centro. Esse era o bairro Zantão.”


Escola do Morro Pelado[3]

“Sou Zélia Barbosa da Silva, tenho 58 anos, moro no Zantão há 26 anos. Sou casada faz 29 anos. Tenho dois filhos, uma menina chamada Leandra e um menino chamado Leandro, o meu menino já é casado e tem um filho. Antigamente a escola era boa, era legal. Os professores davam bastante atenção aos alunos. Os meus filhos acabaram os estudos aqui na Escola Dr. Carlos Moritz. Cheguei a conhecer a escola do morro pelado, mas infelizmente não tive a oportunidade de estudar lá, e nem os meus filhos. Pois eles estudaram onde é atualmente a escola. A escola do morro pelado era de madeira e tinha um bom estudo, tinha poucos alunos. Nesse momento eu não lembro o nome de nenhum professor ou da diretora.”

Vida cotidiana.[4]

“Meu nome é Goretti C. B. Maleski, tenho 53 anos, nasci em Nova Trento. Moro em Brusque, aqui no bairro Zantão. Tenho quatro filhos, duas meninas e dois meninos. Elas são casadas e os dois homens solteiros. Sou casada há 32 anos.Tive uma passagem em minha vida muito ruim, que foi a enchente de 1994, encheu a casa de água. Foi muito triste, foi tudo embora com a enchente.Cheguei ao bairro em 1988. Nessa data nasceu o meu filho Rodrigo. Lembro que a escola era no mesmo lugar, era muito pequena e de um piso só. Não havia cercado, era no meio do mato, não era pintada e tinha uma quadra de areia. A igreja do bairro era a mesma que hoje, com mesmo nome, só que não estava reformada e não possuía o salão. O rio de antigamente era limpo, não existia esgoto, tinha muitos peixes, muitas pessoas pescavam e comiam peixes. Antigamente nós éramos muito pobres quando chegamos ao bairro Zantão. Vivíamos em duas famílias em uma casa de madeira pequena. Não tínhamos banheiro, nem carro, nem moto, ou bicicleta. A estrada do bairro era de barro, então tinha água na rede.”

Lembranças.[5]

“Eu moro há 78 tantos aqui no bairro. Nasci aqui no Zantão. Lembro-me muito pouco daqui, por exemplo, que a estrada era de barro e tinham poucos moradores. Meus pais também nasceram aqui. A vida era muito difícil. A gente era obrigada a trabalhar na roça para ajudar nossos pais.No tempo em que eu estudava, aqui no Zantão não tinha escola ainda, então eu estudava na escola de Santa Luzia.Depois de alguns anos construíram uma escola pequena. A escola era de material, de um andar apenas, não existia a quadra naquele tempo, tinha poucos professores. Lembro de alguns: Ana Augusta, Ana Lúcia, Nilda, Nelson e Dona Altair. A igreja começou lá no morro Pelado, era uma igreja bem pequena, e madeira. Lá só faziam algumas rezas, mas depois resolveram comprar um terreno e fazer outra maior, que é de material, e está nesse local até hoje. Isso é um pouco do que sei sobre o bairro onde nasci.”

Habitação, transporte e escola.[6]

“Meu nome é Francisco Wanka, nasci no bairro Zantão, e moro aqui há 67 anos. O bairro era pobre, tinha pessoas muito humildes, a estrada era estreita e de chão batido. As casas eram poucas e de madeira, algumas cobertas com palha, muito feias. Os meios de transporte eram carroça, carro de mola ou bicicleta, nessa época não tinha nem carro, nem ônibus. A primeira igreja era somente uma cruz, que foi colocada num morro, hoje chamado de Morro Pelado, onde era celebrada a missa ao redor da cruz, não havia igreja. Como não havia igreja no bairro, a catequese era feita num galpão de madeira.E com o passar do tempo e muita luta, os moradores compraram um terreno, onde construíram nossa atual igreja.Mais tarde, com muitas festas realizadas, e com o dinheiro arrecadado, foi construído o salão, onde acontecem em algumas salas, aulas de catequese. Esse lugar serve também para muitas festas na comunidade, bem como festa de comunhão, casamento, aniversários entre outros eventos. As primeiras famílias foram: Verwebe Marscheski, Eccel, Gonçalves, Cabral, Uller, Gripa e Schork. A primeira escola era de material, localizada em cima de um morro, esse é o atual Morro do Zantão, que faz divisa com a cidade de Nova Trento e São João Batista. Sobre a escola lembro-me do recreio, em que cada aluno comia o lanche que levava, preparado pelos pais: batata doce, taiá, banana, pão de fubá, polenta frita. As primeiras professoras foram: Dona Ilca Ceccato, Inês Ceccato e Olívia Zucco.”

A escola e a igreja.[7]

“Chamo-me Osvaldo João Maçaneiro e sou mais conhecido como Dinho Maçaneiro. Tenho 67 anos, sou casado há 46 anos e tenho quatro filhos: Marcial é padre, Dodô, professor de história, o Cléber é radialista e o caçula da casa é o Leandro, que trabalha na Fundação Cultural de Brusque .Eu e Maria Edite Maçaneiro temos dois netos, uma de 10 anos e outra de cinco. Moramos aqui no bairro Zantão há 60 anos. Estudei em uma escola que tinha duas salas e uma cozinha, o diretor era o senhor Nelson Frener. Nesse mesmo tempo já existia escola para adultos e meu pai estudava. Os meus filhos estudaram na escola, aquela que ficava no morro, e só existiam duas professoras, Dona Olívia Zucco e Inês Ceccato, que moravam no centro e vinham até a escola de bicicleta. Nessa época Mário Mazzolo era o diretor da escola e eu fui presidente da APP há oito anos. No terreno onde hoje é a escola, moravam as “bilicas”, eram três irmãs, que condenavam as atitudes, as coisas. Quando as duas mais velhas morreram, o irmão delas Sr. Sebastião e a irmã mais nova resolveram vender o terreno para a escola, onde hoje funciona. A comunidade ajudava com alimentos, produtos de limpeza, etc.Também me recordo de como surgiu a igreja aqui no bairro. Ela começou num galpão onde só cabiam 20 pessoas. O padre Valdemar que realizava as missas. Naquela época eu já era ministro da comunhão. No bairro tinham poucas casas e a maioria do povo era pobre. A única casa que existia de material era do Senhor Mazoli . É um antigo morador do bairro. Hoje eu me sinto muito feliz de ter ajudado a construir a igreja, a escola, e fazer parte do bairro Zantão.”

Entrevista com o casal Maria Goreti Reis e Francisco Luiz Reis[8]

Maria Goreti tem 53 anos e Francisco tem 54 anos. O casal tem três filhos e todos são casados. Maria e Francisco são casados há 31 anos. Eles moram desde que nasceram no bairro Zantão, em Brusque. “Tudo muito diferente de hoje, onde o bairro tem infraestrutura e a estrada é asfaltada. A igreja onde agora é do bairro, não era assim, era de madeira e localizava-se no morro pelado. Recordaram que o bairro mudou muito, pois a estrada era de barro. Havia apenas 30 famílias no bairro e cinco engenhos de farinha. Tudo muito diferente de hoje, onde o bairro tem infraestrutura e a estrada é asfaltada. A igreja onde agora é o bairro, não era assim, era de madeira e localizava-se no morro pelado. O morro pelado não mudou praticamente nada. Eles relembram que a escola era muito pequena, com apenas duas salas de aula e era de material, muito diferente de hoje que a escola é grande e muito confortável. O casal recorda algumas coisas que aconteciam, como: todo ano vinha um grupo militar para limpar e às vezes pintar a escola. A senhora Maria Goreti participa de sua comunidade, já deu catequese na igreja do bairro, já participou de encontros, como os de jovens, e de outros encontros da igreja. Também já ajudou na limpeza da mesma.”

Memórias de Dona Lúcia[9]

Segue abaixo os trechos:

O Casamento

“Todo mundo estava preparado, felizes para aquele dia, o dia do meu casamento. Eu tinha apenas 18 anos de idade, mas já sabia que era isso que eu queria. Então me arrumei com um vestido simples, mas muito lindo para a época, que foi preparado por uma grande amiga. Eu nem imaginava que ela faria o vestido para mim. Quando cheguei à Fábrica Renaux – onde eu trabalhava – ela veio até mim, e me entregou o presente. “- Está aqui seu vestido minha amiga, com todo carinho”. “- Ela mesma havia feito, ficou muito lindo.”Passaram-se uns dias e o meu dia estava chegando...No dia do casamento, nesse momento eu pensava provavelmente as testemunhas já estavam no carro de mola todo enfeitado a caminho da Matriz. Pois só lá se realizavam casamentos, já que não tinha ainda igreja aqui no bairro. Então chegou a hora, entrei na igreja Matriz com um belo sorriso em meu rosto, feliz por realizar esse grande sonho. Casei-me respondendo sim com muito prazer. Quando já estava acabando a manhã os convidados foram para casa, exceto os padrinhos e parentes próximos, que ficaram para o almoço.No final da tarde pouco a pouco foram embora. E eu e meu marido fomos para casa de meu pai e passamos a noite lá. Assim foi meu lindo e inesquecível casamento.”

A educação com os pais – o respeito

“Era hora de silêncio, para mim e meus irmãos. Meus pais estavam com visita. Estávamos esperando a chamada de meu pai, pois era assim. Toda vez que meu pai e minha mãe recebiam uma visita, meu pai nunca deixava eu e meus irmãos ficar com eles participando do assunto. Eles nunca obrigaram ninguém a fazer nada, mas nós sempre fazíamos, ajudávamos, pois o respeitávamos. Meu pai me levava e meus irmãos para todo o lugar, para o trabalho principalmente. Nós ficamos debaixo “dos olhos de nossos queridos pais.”

Ser parteira

“A minha mãe tinha uma profissão que eu admirava muito: ser parteira. Logo comecei a ser também, minha mãe me ensinou tudo. Por exemplo, que na época as pessoas da casa não sabiam que nós estávamos na casa fazendo o parto. A gente vestia um avental por cima da roupa, e em baixo dele, escondíamos o que precisaríamos para fazer o parto, como exemplo, paninhos que usávamos para limpar a criança recém-nascida. Sempre dava tudo certo, graças a Deus! Fiz partos em lugares que nem se pode imaginar, tudo sempre deu certo, mais fiquei muito preocupada um dia, quando fiz um parto no mato, foi muito arriscado e preocupante. Esse dia do parto no mato tem história. Eu nem esperava, estava de saída e então me chamaram às pressas. Logo peguei as coisas, subi na bicicleta e fui. [...] Teve uma vez que fiz três partos, em uma noite, foi tão cansativo.”

O primeiro morador

Segundo dona Lucínia Schork Tarter, é do sobrenome do pioneiro Antônio Francisco Antão, repetido de forma errada pelo povo, que surgiu o nome Zantão. Segundo dona Lucínia, Francisco Antão tinha a barba comprida e a morte chegou quando já era muito velho. Morava perto de onde hoje é a Escola de Ensino Fundamental Doutor Carlos Moritz e vivia da plantação de fumo. Sobravam as três filhas de Antão: Lídia, Bilica e Aninha, que morreram solteiras, segundo dona Lucínia.

Igreja

A Capela Santa Cruz do Redentor assiste aos fiéis do bairro.

E.E.F. Dr. Carlos Moritz[10]

Em 1959 o Senhor Sebastião Gonçalves doou um terreno para a construção de uma escola no bairro, que foi inaugurada em março de 1960 pelo Prefeito Carlos Moritz, passando assim, a ser chamada em sua homenagem.

Em 1974 foi criada a Recreação Infantil, anexa ao educandário. Mas, somente em 1980 ela foi criada por lei, denominada "Recreação Infantil Vó Elvira"[11]

No ano 2000 o educandário passou a chamar-se "Escola de Ensino Fundamental Dr. Carlos Moritz"[12], sendo o ensino de 5ª a 8ª série implantado de forma gradativa a partir daquele ano.


Referências

  1. Produzido pelos alunos da Escola Fundamental Dr. Carlos Moritz pelo Projeto “Memória Viva: Meu Bairro... Minha cidade. Pesquisa realizada em 2010.
  2. Entrevista com Dona Lúcia. Aluno: João Victor Feller
  3. Entrevista com Zélia Barbosa da Silva. Alunas: Jéssica de Souza(7ª B), Sabrina Mendes de Oliveira (7ªA)
  4. Entrevista com Goretti Clarinha Battisti Maleski. Aluna: Patrícia Verwiebe
  5. Entrevista com Orlandina Reis. Aluna: Patrícia Verwiebe
  6. Entrevista com Francisco Wanka. Aluno: Leonardo W. Gonçalves
  7. Entrevista com Osvaldo João Maçaneiro – Dinho. Colaboradoras: Alunas da sétima série: Abigail, Rosimara, Jéssica e Raquel. Orientadas pela professora Neusa Wessolski
  8. Orientação da professora de Português: Neusa Ap. Wessolwski Colaboradores: Ariele, Cláudia, Manoel e Patrícia.
  9. Trechos das memórias coletadas pelos alunos da sexta-série, da Escola Dr. Carlos Moritz. As memórias foram escritas a partir de uma visita de Dona Lúcia, moradora do Bairro Zantão. Ela e sua amiga contaram como era a vida delas há 60 anos aproximadamente.
  10. Informações fornecidas pela Secretaria Municipal de Educação.
  11. Brusque. Decreto nº 1.053 de 12 de novembro de 1980.
  12. Brusque. Decreto Nº 4.618 de 20 de novembro de 2000.
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