São João

De Sala Brusque Virtual

Tabela de conteúdo

Vivências: histórias de bairro (da exclusão a participação)[1]

  • Marlus Niebuhr, Historiador[2]

A data de 12 de agosto de 1998, marcaria o início do projeto Bairro & Memória, desenvolvido pelo Centro de Documentação Oral e Memória – CEDOM, localizado nas dependências da FEBE, hoje Unifebe.

O projeto, foi desenvolvido primeiramente no Bairro São João, na ocasião foi estabelecido um contato e autorização com Prefeitura Municipal de Brusque, para a realização das pesquisas. A primeira reunião na Escola Isolada Cedro Alto, marcou o contato inicial com os professores e, portanto a primeira discussão em grupo sobre a possibilidade da realização da pesquisa[3], no entanto, já neste primeiro encontro a equipe foi surpreendida com a participação de idosos do bairro convidados pela escola como o Sr. Antônio Cezari e Sra. Isabel Cezari, a Sra. Clara Mafra, a Sra. Clotilde Roza e outros. Assim, desde cedo, percebemos a possibilidade de gerar um despertar tanto individual como coletivo no sentido da valorização da herança cultural da localidade. Assim, destacamos o papel do idoso na sociedade, como um guardião da memória da comunidade[4], neste sentido cabe ao entrevistador, ao pesquisador a sublime “disposição para ficar calado e escutar”[5]. Assim, após este primeiro encontro, optou-se então, por centralizar o foco das atividades nas escolas locais, que se transformariam em espaços de discussão e debate.

Inicialmente, as professoras do Bairro São João, começaram a despertar nos alunos a importância do estudo da história da local onde viviam, incentivando-os a pesquisarem a respeito; não tardou muito, e as informações começaram a surgir: a chegada dos imigrantes, as primeiras atividades econômicas, as dificuldades de sobrevivência, a fauna e a flora, bem como os sonhos desses camponeses, na sua maioria avos e avós destes pequenos pesquisadores. Despertado o interesse dos alunos cada escola acabou se transformando em local de exposição dos trabalhos e um espaço privilegiado na comunidade.


Escola Isolada Cedro Alto: a sala de aula virou local de exposição, dia após dia, chegavam à escola objetos antigos como gamelas de madeira, pilões, balanças artesanais, moedor de pimenta, máquinas de costura, lampiões, brinquedos... Também foram coletados documentos como: certidões de nascimento e fotografias. Segundo, a diretora da época Neuza Sapelli Teixeira, “faltou espaço na sala de aula para colocar tudo... eles perguntavam como era a vida antigamente, o que faziam, como trabalhavam, como era a escola, sobre as distâncias e como se locomoviam...[6] Assim, foi criada uma exposição no interior da escola com o material coletado nas pesquisas, como nossa equipe ainda estava sendo formada, apelamos para o trabalho voluntário, e chamamos alguns colaboradores, dentre os quais o Prof. Honório Bertolini, que documentou em vídeo a exposição, os resultados impressionaram tanto que “criamos tempo e condições” para continuar gravando o andamento da pesquisa, na época a Fundação Educacional de Brusque, hoje Unifebe, nos possibilitou o suporte de todo o material necessário para o prosseguimento da pesquisa, bem como “nosso quartel general” onde ficava localizado o CEDOM, como também equipamento de informática.

Munidos de vontade e incentivo, angariamos equipamentos e partimos para o campo de pesquisa, um dos momentos mais cativantes, foi quando saímos com os alunos para visitarmos a comunidade; a tarde encontrava-se chuvosa, mas o animo destes pesquisadores mirins estava radiante, a estrada ficou pontilhada de sombrinhas coloridas e guarda-chuvas. Nós corríamos para acompanhá-los; primeiro visitamos uma das residências mais antigas da localidade, que aguçava a curiosidade dos alunos fazia muito tempo... Enquanto explorávamos o local, nosso convidado “nono Pino”, como é conhecido carinhosamente José Tamasia, chegou para dar explicações e contar suas histórias... a chuva amainou e agrupados em torno de uma cruz erguida por missionários católicos, os alunos se dispuseram em círculo; rapidamente uma das professoras emprestou uma cadeira de um dos vizinhos mais próximos para alojar nosso convidado especial. Atentos, descobrimos que nono Pino havia nascido em Botuverá a 18 de março de 1908, e que decidiu ir morar no bairro (região do Cedro), pois seu irmão o convencera que “no Cedro a terra era boa... e ficava mais perto da cidade...” 2. A cidade em questão é Brusque, localizada no curso do Rio Itajaí-Mirim, fundada a 04 de agosto de 1860, a 38 quilômetros da cidade portuária de Itajaí situada no litoral catarinense. Mas, voltemos ás histórias de “nono Pino”, o corte da madeira e o rio são lembranças recorrentes e continuamente reafirmadas: “cortava madeira a uma distância de 4 quilômetros do rio... Puxava com zorra de boi até o rio... Amarrava a madeira com uma corda de casca... Tirava com a ponta da faca a casca que depois de molhada virava uma corda.[7]

Após um logo tempo de explicações, continuamos as visitas de estudo, e dirigimo-nos então para a residência da Sra. Clotilde Roza que havia preparado uma pequena amostra de objetos pertencentes a sua família e com paciência, explicava aos curiosos expectadores a função de cada um. A atenção foi aguçada quando foram mostrados os “brinquedos de antigamente”, em meio à euforia despertada resolvemos caminhar na antiga trilha que levava a cidade de Brusque... Lá estávamos nós, pesquisadores, professores e alunos, caminhando ao lado de um ribeirão, o cinegrafista, o professor Honório, mal conseguia enfocar as crianças que corriam pelo mato adentro. Histórias à parte, o que chamou a atenção é que não nos encontrávamos longe da escola e até então os alunos nunca haviam estado ali... Encontramos vestígios da antiga ponte, houve aula em meio à mata, e mais perguntas foram respondidas. Empolgados com os resultados alcançados agendamos uma visita ao Museu Arquidiocesano de Azambuja, acompanhados pela diretora e professoras. Para registrar a visita o aluno e voluntário do Curso de Filosofia Fábio José Zucco que prontamente fotografou a visita. Os alunos se divertiram a valer com a excursão no “ônibus amarelo da FEBE”, se a viagem foi uma festa, diante das relíquias do museu surge à percepção que “as coisas antigas tem valor”, logo um museu é um lugar de memória, assim seu bairro surge como lugar de memória, suas casas são espaços da memória e eles se tornarão guardiões da memória da localidade.

Escola Prof ª. Edith Gama Ramos: de acordo com os desejos dos alunos, as atividades tomam caminhos diferentes, professoras e alunos organizam uma exposição voltada para os artefatos religiosos da comunidade: crucifixos, estolas, quadros religiosos e aspectos da religiosidade popular. A mostra não se esqueceu de resgatar os ferros de passar a carvão, bules, e vários objetos, devidamente etiquetados e identificados; o tema proposto pela escola foi: “Resgatando a história da comunidade, é que conseguiremos manter viva a nossa memória.” Atrás da escola, em uma aconchegante sombra “doada” pelas goiabeiras, os idosos da comunidade são convidados para uma palestra com os alunos, que a tudo anotavam. Mais uma vez, utilizavamos o “ônibus amarelo” para as nossas visitas, primeiramente chegamos a uma das residências mais antigas da região próxima à escola, mais o local, contemplava tanto o valor histórico como o social, a saber, abrigava o CERBEL – Centro de Recuperação Betel, aberto para o atendimento dos dependentes do uso de drogas, assim os alunos ouviram uma palestra sobre os perigos do álcool e do envolvimento com drogas, bem como acompanharam com atenção o depoimento dos internos. Mas tarde, o merecido lanche e uma refrescante incursão a uma pequena cascata existente na propriedade. Quando do retorno a escola, surgiu a idéia de contribuir com alimentos para a missão, projeto que envolveu alunos e professores, como também foi levada a FEBE, onde os funcionários da instituição colaboram com satisfação. Cabe salientar o apoio voluntário da aluna Yulilah Mello Antunes Krieger, do Curso de Filosofia, para realizar o acompanhamento das entrevistas, “Lila” foi aluna ouvinte do Curso de História da FEBE, mais tarde ingressou no Curso de História da UNIVALI e atualmente realiza trabalhos no Colégio Cônsul Carlos Renaux, em Brusque.

Escola Prof ª. Adelina Zirke: enquanto descarregávamos nosso equipamento, notávamos a euforia por parte dos alunos desejosos de nos apresentar seus trabalhos. Mais uma exposição havia sido montada, mas uma surpresa nos aguardava. Os objetos eram variados e representavam o cotidiano dos moradores daquela localidade, no entanto o que chamou nossa atenção é que, um a um os alunos dirigiam-se à frente selecionavam determinado objeto e explanavam sobre sua procedência, sua função e a ligação com as famílias da região. Sem dúvida, o desempenho e a desenvoltura dos alunos marcaram aquela tarde em nossa memória; mais tarde visitamos um engenho de farinha de mandioca do Sr. Rodolfo Dada, que o conservava funcionando. Logo, percebemos que estávamos num “laboratório e museu” a céu aberto, no local lembramos do depoimento da Sra. Clara Alma Matilde Mafra: “Todos viviam da farinha, tinha muito engenho de farinha... no Taquaruçu, na Bela Vista, no Salto Alto, no Ribeirão do Mafra... meu marido João e seu irmão eram os compradores, depois levavam a farinha para Brusque, Blumenau e Itajaí.[8] Em seguida, foi possível observar a técnica do trabalho artesanal na madeira nas engrenagens minuciosamente talhadas, e a bela roda d’ água que colocava o engenho em funcionamento. Nesta etapa das visitas os alunos já se comportavam como verdadeiros pesquisadores, acompanhando nossas atividades entrevistavam moradores, fotografavam e faziam perguntas. Descobriram a importância do fumo na economia recente da região e detalhes de como colher e preparar as folhas para a revenda.

Com os alunos das escolas multisseriadas realizando um levantamento de dados na região, as pesquisas constatavam o que o senso comum apontava, o grande fluxo de imigrantes italianos para a formação do bairro, examinando as fichas, encontramos os sobrenomes mais comuns na localidade, por exemplo Stofela, Sapelli, Vailati, Testoni, Contesini, entre outros. Mas a curiosidade dos alunos foi além, e foram levantados pontos negativos e positivos do bairro. A busca pela identidade italiana se fortaleceu pois queriam conhecer seus antepassados e saber porque saíram da Itália, queriam saber mais...

Considerações

Gostaria de encerrar relembrando a grande exposição que foi realizada na Escola Isolada Cedro Alto, com a ajuda de toda a comunidade. Como foi nosso primeiro trabalho, é certo que marcou de maneira especial à vida de quem dele participou, e assim passo a retratá-lo: toda a comunidade foi engajada ao evento, inclusive a Associação de Bairro; as salas de aula e os corredores se transformaram em espaços que refletiam a cultura local. Grandes painéis retratavam os passos da pesquisa, expondo trechos de entrevistas e fotografias dos momentos marcantes do projeto; os objetos das três exposições foram reunidos e outros acrescentados, pouco a pouco, os convidados de honra foram chegando, aqueles que deram sua voz a esta pesquisa, a saber, os avós, tios, pais, primos e primas dos alunos que desenvolveram este trabalho. Depois da apresentação da diretora e das explanações sobre o projeto, a comunidade foi convidada a assistir o vídeo por nós produzido, por cerca de sessenta minutos devolvíamos à comunidade as informações que ela havia nos presenteado com tanto carinho e esforço.

Ao ligar o aparelho de TV, não havia mais lugar na sala de aula escolhida para a apresentação. As crianças ocupavam o chão, mas, apesar da aparente confusão, se fez silêncio quase solene, cada imagem refletia a emoção no rosto daqueles que participaram da pesquisa, lágrimas rolavam vez por outra e eram rapidamente escondidas com um gesto de mão, crianças se ruborizavam e se escondiam envergonhadas, mas surgia em seus lábios um sorriso maroto. Percebia-se o orgulho e a satisfação por onde corríamos os olhos. Naquele dia a comunidade relembrou seu passado e viu o futuro espelhado no desejo e na garra de suas crianças.

Educação

E.E.F. Cedro Alto[9]

A escola foi construída na administração do Prefeito Antônio Heil, (1966- 1970 ), sendo a construção de uma pequena escola de madeira, somente com uma sala de aula, disponível para o estudo.

No entanto, antes dessa “escolinha”, as pessoas do local tinham aulas nas residências das pessoas da comunidade, que cediam suas casas, para as pessoas que tivessem interesse em aprender. As aulas eram ministradas por "professores" vindos de outras cidades, principalmente Florianópolis, e eram na maioria estudantes de Filosofia.

Em 1998 a Escola Isolada Cedro Alto passou a denominar-se Escola Multisseriada Municipal Cedro Alto[10].

Em 2000 recebeu sua atual denominação: Escola de Ensino Fundamental Cedro Alto[11]

A Escola de Ensino Fundamental Cedro Alto possui aproximadamente 320 alunos distribuídos entre Educação Infantil e 8ª série, sendo que a implantação das séries finais aconteceu, gradativamente, a partir do ano de 2001.

Referências

  1. O artigo original foi publicado por Marlus Niebuhr na Revista de Extensão do Sistema ACAFE, Blumenau - SC ( Ed: FURB), n. 01, p. 71-78, 2003.
  2. Historiador, Diretor de Patrimônio Histórico de Brusque. Na ocasião do desenvolvimento do artigo era coordenador do Centro de Documentação Oral e Memória – CEDOM / Unifebe.
  3. Os primeiros passos desta pesquisa foram apresentados na Conferência Internacional de História Oral, realizada no Rio de Janeiro, em 1998 e publicado nos anais com o título: “Ao encontro das vozes silenciadas: uma experiência que traz vida para a história.” Para a atual publicação o texto foi adaptado.
  4. Entendemos aqui comunidade não como um todo homogêneo, mais composto por interesses conflitantes e marcado por fortes contrastes, concordamos assim com a afirmação que a “noção de comunidade é problemática” e que o historiador a deva questionar.SAMUEL, Raphel. História local e história oral. In: Revista Brasileira de História. São Paulo: ANPUH/Marco Zero, v. 09, n. 19, set.89/fev.90.p.228.
  5. THOMPSON, Paul. A voz do passado: história oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.p.254.
  6. Projeto de memória oral é levado as escolas do Cedro Alto. Diário Brusquense. 16/10/98.
  7. Idem.
  8. Sra. Clara Alma Mafra, entrevista concedida em 1998, na localidade do Bairro São João.
  9. Informações fornecidas pela Secretaria Municipal de Educação
  10. Brusque. Decreto nº 4.084 de 23 de junho de 1998 que "Transforma Escolas Municipalizadas".
  11. Brusque. Decreto Nº 4.623/2000 de 20 de novembro de 2000. Altera identificação dos estabelecimentos de ensino da Rede Municipal de Ensino de Brusque em EEB, EEF e CEI.

Outros recursos

Entrevistas

Entrevista José Tamasia

Entrevista Antônio Cesari

Ferramentas pessoais