Documento oral como pesquisar

De Sala Brusque Virtual

(Redirecionado de História Oral)
  • Marlus Niebuhr

Este texto visa instrumentalizar com noções básicas, pesquisadores da rede de educacional de Brusque, tanto pública quanto privada, assim como demais interessados na pesquisa histórica. Os conceitos não serão aprofundados, neste momento, mas servirão como tema gerador de debate.


Nicolau Wietcosky. Acervo CEDOM/Foto Honório Bertolini.

Para iniciar o tema, buscamos a fala de Paul Thompson, sobre a importância da história oral, na reconstituição da história:

As testemunhas podem, agora, ser convocadas também de entre as classes subalternas, os desprivilegiados e os derrotados. Isso propicia uma reconstrução mais realista e mais imparcial do passado, uma contestação ao relato tido como verdadeiro. Ao fazê-lo, a história oral tem um compromisso radical em favor da mensagem social da história como um todo[1]

Nesse sentido, a via metodológica da História Oral permitirá que a história da localidade, espelhada nos depoimentos sobre os hábitos cotidianos, possa ser também contada a partir, daqueles que a vivenciaram. É por meio desse contato que surge uma história mais humana. E é pelo do método da História Oral que surge um modo de pesquisa novo e envolvente, que pressupõe uma parceria entre o informante e o pesquisador, construída ao longo do processo de pesquisa. Estas relações devem ser baseadas na confiança mútua, de acordo com o historiadora Ecléa Bosi, esta confiança se faz:

depois da entrevista, na hora do cafezinho, na escada, no jardim, ou na despedida do portão. Muitas passagens não foram registradas, foram contadas em confiança, como confidências[2].


Como metodologia que busca captar o passado, a História Oral constitui-se no espaço vivificador da relação entre a História, a memória e a identidade. Assim, a memória e história são processos sociais, e de acordo com o professor José Carlos Bom Meihy:

a história oral implica uma percepção do passado como algo que tem continuidade hoje e cujo processo histórico não está acabado. A presença do passado no presente imediato das pessoas é a razão de ser da história oral.[3]

Nesse sentido, cabe ao historiador “interrogar” o entrevistado, sobre os vários tempos, percebendo as transformações e permanências da sociedade.

Mas não podemos perder de vista, que é preciso levar em conta a subjetividade de quem dá o depoimento (a entrevista), e também a subjetividade de quem o interpreta. Assim, o entrevistado não deve ser visto apenas como fornecedor dados, ele nos oferece um discurso, filtrado pelo tempo, pela sua visão de mundo.

Tabela de conteúdo

Historiadores e a História oral

Vejamos as considerações de Paul Thompson, descritas no livro: “A voz do passado: história oral”, sobre a utilização da metodologia da história oral ao longo da história.

Para o historiador James W. Thompson, em 1942, as entrevistas eram: “ uma maneira estranha de coletar dados...” Na obra de Jules Michelet, a “História da Revolução Francesa (1847 – 1853)”, descobrimos que:

  • Tradição oral foi utilizada com documentos oficiais.
  • Foi um dos primeiros a introduzir em sua obra uma compreensão da terra e da paisagem.
  • Os documentos oficiais foram vistos como uma versão da história política.

Recuando no tempo, descobrimos que na Idade Média, que “os estudiosos antes ouviam do que liam” e os “ registros contábeis deveriam ser lidos em voz alta”, pois os documentos podiam ser forjados.

Na antiguidade, no século V, A.C., um dos métodos de Heródoto era procurar testemunhas oculares e interrogá-las sobre o passado.

Nas as sociedades pré-letradas, descobrimos que:

  • Toda história era história oral.
  • As tradições orais eram transmitidas pelo: testemunho grupal ou recitações. Nas cortes africanas, em Ruanda, os memorialistas eram responsáveis pela preservação de um tipo de tradição ( listas de reis, acontecimentos, segredos...)

A entrevista

Duas regras de ouro: “escutar e não impor suas idéias”.

Alguns passos para uma boa entrevista, de acordo com Paul Thompson, retiradas do livro: “A voz do passado: história oral” e da experiência pessoal do autor deste artigo:

1. Preparação das informações básicas

Um pesquisador desinformado, e mal preparado, causa desconforto ao entrevistado, pois não consegue estabelecer relação entre o presente e o passado, construindo pontes para o fluir da memória.

2. As perguntas devem ser bem específicas e bem fundamentadas

Aqui estabelecemos um elo com o item anterior. Perguntas mal formuladas geram confusão na hora da entrevista e divagações desnecessárias, que custam tempo precioso ao pesquisador.

3. Conhecimento das práticas e terminologias locais

A palavra chave aqui é o conhecimento, cito como exemplo, uma pesquisa sobre o cotidiano fabril, no caso de uma indústria têxtil. Ora, o entrevistar deve deter um mínimo conhecimento das atividades deste ramo industrial, as funções desempenhadas pelos operários, para melhor entender a dinâmica interna de trabalho.

4. Cuidado: com “questionários fechados”

Novamente, apontamos para a importância da formulação de pergunta. Para ilustrar: “- O senhor é natural de Brusque?” Este tipo de pergunta gera a respostas monossilábicas (sim! Não!). Lembrem-se, de que, dados sobre o entrevistado, podem e devem ser coletados previamente para evitar esse tipo de resposta, que pouco ajuda para compor um quadro detalhado da pesquisa. Mas, por outro lado, não devemos nos esquecer de que a “entrevista livre”, sem um roteiro preestabelecido, pode perder-se em divagações.

5. A entrevista deve fluir, não controlá-la, mas orientá-la

Cabe ao entrevistador, encaminhar a entrevista com tranquilidade. Devemos ter em mente que cortar a fala do entrevistado em algum momento, pode parecer útil, mas pode levar a omissão de informação que seria revelada na continuidade do raciocínio. É necessário bom senso, e seguir as orientações dos itens anteriores, para orientar a entrevista.

6. Perguntas são necessárias, e apontam para uma direção

Neste caso reforçamos a ideia do planejamento e enfatizamos que os entrevistados devem saber nosso interesse.

7. Perguntas devem ser simples e cabe ao entrevistador incentivar respostas

8. Pergunta aberta: “ – Conte-me a respeito de...”

Não devemos confundir este item, com a ideia da “entrevista livre”. Aqui o entrevistador, possibilita ao entrevistado ampliar sua resposta, criando possibilidades para novas perguntas.

9. Evite perguntas “diretivas”

Não apresente suas opiniões ou provavelmente obterá o que gostaria de ouvir. Os entrevistados devem apresentar seus conceitos e não ao contrário

O personagem é o entrevistado, o centro da atenção do pesquisador. A entrevista não é uma conversa ou um “bate-papo”, comparando opiniões ou discordando de pontos de vista.

10. Busque perguntas que obriguem uma resposta e que desencadeiem lembranças

11. O entrevistador pode levar consigo “auxílios” para a memória

Para ilustrar, sugerimos a possibilidade de “auxílios” como: fotografias, recortes de jornais, documentos, etc. Lembre-se que objetos, trazem a recordação momentos importantes, e este processo deve ser incentivado pelo entrevistador.

12. O lugar da entrevista

Este ponto, é negligenciado por muitos pesquisadores, e somente após a entrevista, percebem as consequências deste ato. O lugar deve ser agradável ao entrevistado, no entanto o pesquisador não pode deixar de estar atento aos ruídos como transito intenso, que podem prejudicar a gravação, assim como o gorjear de um belo canário, ou uma desleal concorrência com um rádio e televisão próxima ao local da entrevista. Sugestão: procure um lugar sossegado que crie uma atmosfera de confiança e privacidade para a entrevista.

13. Entrevistas coletivas exigem mais cuidados

Pode acontecer que durante a entrevista, surjam outros possíveis entrevistados, ou até mesmo que podem ter sido convidados pelo entrevistado para a ocasião. Neste caso, a entrevista pode apresentar dificuldades para transcrição. Um exemplo, que recordo é uma entrevista, que aconteceu em uma movimentada cozinha, entre o lavar de louças e panelas, muitas senhoras recordavam fatos de outras épocas, como o registro não foi feito em vídeo, a identificação de cada personagem foi fonte de preocupação.

14. Informações ditas em confiança (a ética na História Oral)

A ética do pesquisador é fator fundamental. Muitas informações são confidenciadas ao entrevistador, geralmente após a entrevista, na hora do cafezinho ou na despedida, mas se for solicitado ao entrevistador que não sejam reveladas ou sigilo, devemos respeito o guardião destas memórias.

Quanto a este último item (a ética na História Oral[4]), devemos recordar que: A entrevista deve ser devidamente identificada nas fontes escritas como: citações corretas, títulos, autores e locais de guarda, devem ser informados.

As fontes orais trazem maior responsabilidade e compromisso, pois trará conseqüências imediatas ao entrevistado e sua família. Por exemplo: revelações de infrações legais, rejeições, constrangimentos, paternidade e partilha de heranças.

Referências

  1. THOMPSON, Paul. A voz do passado: História Oral. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1992,p.26
  2. BOSI, Ecléa.Memória e Sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1987,p03.
  3. MEIHY, José Carlos Sebe. Manual de História Oral. São Paulo: Edições Loyola, 1996, p.10.
  4. AMADO, Janaína. A culpa nossa de cada dia: Ética e História Oral. In: Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História da PUC – SP. [Ética e História Oral]. São Paulo, SP – Brasil, 1981.
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