Brusquer Zeitung

De Sala Brusque Virtual

(Redirecionado de Gazeta Brusquense)
  • Álisson Sousa Castro, Historiador.
Primeira capa, em 1912.
Fonte: Brusquer Zeitung, arquivado em SAB
A imprensa teuto-brasileira em Santa Catarina nasce com o periódico joinvillense Colonie-Zeitung, mais tarde denominado Kolonie Zeitung. Este foi o único jornal editado em colônias alemãs em Santa Catarina até o ano de 1881 - ano do surgimento do Blumenauer Zeitung. Estas duas publicações, juntamente com os Kalenders (almanaques) foram responsáveis por suprir de informações os habitantes de Brusque já que a popularização de outros veículos como o rádio (Rádio Araguaia em 1946) e a televisão (após 1948 no Brasil) ainda se fariam distantes.

Segundo Ayres Gevaerd[1], o jornal “O Novidades” trazia farto noticiário de Brusque só que em vernáculo, o que era impeditivo já que o ensino público não se fazia presente e o ensino privado era realizado em idioma alemão – o que reforçava o desconhecimento do idioma português. Apesar da circulação dos jornais Blumenauer e Kolonie em Brusque[2] as notícias de Brusque apareciam raramente, ficando o noticiário local prejudicado já que as notícias disponíveis na maioria das vezes estava em português.

Foi somente em 1912 que finalmente se editou um jornal em Brusque, em idioma alemão: o “Brusquer Zeitung”, tendo ganho sua edição em vernáculo no ano de 1914 com o nome de “Gazeta Brusquense”. Para a historiadora Giralda Seyferth[3] sua “[...] expressão política local e estadual [...] foi mínima, provavelmente porque sua circulação era restrita”. Seyferth[4] afirma ainda que a maioria da população de Brusque na época era alfabetizada, de onde se postula que seu caráter restrito se dava à sua circulação local, até mesmo pelo fato dos municípios vizinhos serem povoados por elementos de outras etnias.

Assim como os jornais “Kolonie Zeitung” e “Blumenauer Zeitung”, o jornal “Brusquer Zeitung” também fora fruto do espírito associativista[5]. O “Brusquer Zeitung” compunha-se de uma Sociedade de Acionistas presidida por Otto Renaux, sendo idealizado por Otto Gruber, que foi seu primeiro redator.

Retornando à historiadora Giralda Seyferth (1981), a mesma em seu estudo sobre o nacionalismo e identidade étnica dos teuto-brasileiros no Vale do Itajaí afirma que “os jornais em língua alemã que circularam no sul do Brasil até 1941 se consideravam, sem exceção, como defensores do 'Brasilianisches Deutschtum' [germanidade brasileira]”. Assim sendo, o objetivo geral deste artigo é identificar quais temas foram tratados pelo periódico e verificar se eles guardam alguma relação com esta ideia de germanidade brasileira.

Para responder a este questionamento faz-se necessário compreender o que seria esta germanidade brasileira, compreender a estrutura do jornal e classificar as notícias em temáticas e por fim verificar se há disparidade no enfoque internacional, nacional, estadual e local quanto à relação temática e alinhamento ao Deutschtum. Como produto destes questionamentos pretende-se possuir uma análise da imprensa teuto-brasileira em Brusque no contexto próximo à Primeira Guerra Mundial a fim de subsidiar futuros estudos relacionados à identidade étnica no período de guerra no município de Brusque.

Num primeiro momento este artigo explora o conceito de “Deutschtum” desenvolvido pela historiadora Giralda Seyferth. Após, trata da estrutura do jornal e analisa as temáticas das notícias de acordo com os níveis elencados conforme sua estrutura para uma categorização e posterior análise.

Tabela de conteúdo

Brasilianisches Deutschtum[6]

Para Seyferth (1981) as raízes ideológicas do nacionalismo alemão estão contidas em autores do romantismo alemão como Herder, que criou o conceito de Volksgeist (espírito do povo), particularizando um povo em detrimento do homem universal. Apesar do antagonismo entre unificação política e independência regional - que teria fundamentado o pensamento destes autores - o Estado continua sendo algo considerado artificial e não se impõe à existência da nação, tendo esta idéia se propagando antes da dominação francesa. Na prática ele acabou sendo mais tarde um agente ativo no processo de unificação nacional e da revolução industrial alemã.

O apelo à nação no seio da população só encontrou receptividade quando feito pela Prússia, não tendo a Áustria alcançado sucesso na oportunidade em que enfrentara Napoleão. Alguns autores considerarem a língua como o elemento fundamental para a nação, o que por si só não explicaria a preferência da Prússia em detrimento da Áustria.

A condição sine qua non era a de que a Prússia estivesse a frente do processo, o que se desenhou com o Zollverein (união aduaneira) em 1833 ao consolidar-se como uma espécie de nacionalismo econômico. Embora o Zollverein tenha obtido algum êxito no campo econômico, as revoluções que visavam reformas como implementação de constituição e defesa da unidade alemã foram repelidas por forças armadas conservadoras, tendo surgido mais tarde a figura de Bismarck que usa o nacionalismo dos filósofos como um recurso para a ação política firmando a idéia de que a nação como entidade política deveria ser vinculada à Prússia tendo com a institucionalização o poder de se firmar frente a França e Rússia, acabando também com as disputas dinásticas.

O sucesso da Prússia no campo econômico em curto prazo deveu-se à revolução industrial implantada a partir de 1850 em um processo de renovação de seu sistema de transporte e fortalecimento de seu exército. Até a década de 1860 (Fundação da Colônia Itajahy-Brusque) fica implícito que a união viria com um inimigo em comum – o nacionalismo de Bismarck consolida a unificação com três guerras: 1864, 1866 e 1870, respectivamente contra a Dinamarca, Áustria e França.

Os dois primeiros triunfos bélicos aconteceram sem o apoio do parlamento e do povo. A França, por fim, seria o inimigo em comum com os Estados do Sul por causa dos limites do Rio Reno.

Estes estados até então estavam próximos ao posicionamento da Áustria, que na visão de Bismarck seria excluída da Alemanha. O inimigo em comum os fez ceder aos apelos da política nacionalista de Bismarck e ao derrotar o inimigo, os alemães reunidos em Versalhes proclamaram o rei da Prússia como Imperador Guilherme I da Alemanha em 1871.

Deste período constata-se que a rápida industrialização, em vez de desenvolver o princípio liberal, acabou por exaltar a participação estatal neste processo ao que Seyferth (1981, p. 34) afirma que

Este tipo de individualismo está de acordo com uma outra característica do nacionalismo da Alemanha imperial, expressa na obra de Treitschke e outros autores, segundo a qual a unidade alemã se manifesta na pessoa do Imperador que, em síntese, é a Alemanha.

Prova da personificação da unidade alemã na figura do Imperador são as comemorações de 27 de janeiro nas colônias alemãs do sul do Brasil, que ultrapassavam qualquer festejo de carnaval ou 7 de Setembro.

O próprio jornal Brusquer Zeitung noticia em 1912 a comemoração que contou com apresentações artísticas, tendo sido este tipo de festejo substituído em 1914 por um culto na Igreja Luterana com a finalidade de atender aos apelos do Imperador Guilherme II à comunidade alemã do exterior: o envio de donativos, sobretudo de dinheiro.

Segundo Seyferth (1981) são quatro as características do nacionalismo alemão neste período: política expansionista; racismo vinculado à doutrina nacionalista; propaganda em torno da marinha que permitisse uma concorrência ao poderio naval britânico e ódio à Inglaterra, principal empecilho à expansão alemã. Estas características foram divulgadas por meio de uma verdadeira propaganda de guerra.

Dentre os divulgadores destacamos a Liga Pangermânica (fundada em 1890) que tinha por objetivo a animação do caráter nacional alemão em todo o mundo, a conservação da índole e dos costumes alemães na Europa e além-mar, e a união do Deutschtum que, segundo Seyferth (1981, p.3) “é uma ideologia nacionalista transformada ou modificada em ideologia étnica”. Em outras palavras

Deutschtum engloba a língua, a cultura, o Geist (espírito) alemão, a lealdade à Alemanha, enfim, tudo o que está relacionado a ela, mas como nação e não como Estado. Representa uma solidariedade cultural e racial (sic) do povo alemão. [...] um alemão é sempre alemão, ainda que tenha nascido em outro país. Nesse sentido, nacionalidade e cidadania não se misturam e não se complementam. A nação é considerada fenômeno étnico-cultural e, por esta razão, não depende de fronteiras; a nacionalidade significa a vinculação a um povo ou raça (sic), e não a um Estado. A cidadania, sim, liga o indivíduo a um Estado e, portanto, expressa sua identidade “política”. SEYFERTH, 1981, p. 46

Portanto, a Liga Pangermânica sintetiza o nacionalismo dos filósofos do romantismo alemão juntamente com o nacionalismo bismarckiano num período após a grande emigração de alemães (nacionais que não faziam parte de uma Alemanha unificada). A população espalhada pelo mundo antes de sua unificação também deve participar do Deutschtum.

Importante ressaltar que a idéia de coesão através de um inimigo em comum volta a tona. A Inglaterra, em substituição à França, é eleita como alvo da Liga Pangermânica, que faz ampla propaganda anglofóbica e antisemita – já que incorporara também a idéia de superioridade racial, embora seus contornos tenham ficado mais evidentes no período da Segunda Guerra Mundial.

O anti-semitismo, além do aspecto biológico – legitimado na época pela ciência, encontra motivações também nas doutrinas políticas: tanto o liberalismo quanto o socialismo são fruto dos judeus – não tendo estas ideologias receptividade na industrialização alemã que tivera êxito devido ao protagonismo estatal.

Estas teorias científicas teriam sido motivadoras da proposta de fundação de colônias alemãs no sul do Brasil com a idéia de branqueamento da população onde o cruzamento de raças (sic) resultaria em indivíduos com tom de pele mais claro. Ressalta-se que o Deutschtum estava carregado também por um componente étnico e biológico – o que criara resistência à idéia de miscigenação que teria motivado o apoio do Governo Imperial ao estabelecimento das referidas colônias.

Mas, não só a questão biológica causaria incompatibilidade com o interesse brasileiro. A pouca infra-estrutura governamental na época incapaz de ofertar ensino regular em escola pública no idioma português fez com que os imigrantes, pela sua coesão étnica e seu isolamento geográfico mantivessem o uso quotidiano do idioma alemão – elemento que é ingrediente essencial do Deutschtum.

A idéia de prosperidade econômica aliada a superioridade biológica, juntamente com o conhecimento e experiência de uma Alemanha em franca revolução industrial, fez com que os imigrantes viessem com um espírito empreendedor ao passo que os habitantes do litoral, de origem açoriana, que não viveram este processo fossem dados como inferiores e não afeitos ao trabalho. Este descompasso, sem as devidas ressalvas, legitimou a superioridade do alemão em relação ao trabalho.

A idéia de nacionalidade pelo critério do jus sanguinis, ou seja, por sangue (comum aos países de emigrantes) era incompatível com os critérios da opinião pública brasileira, ou seja, incompatível com o jus solis, onde quem nascia no Brasil era brasileiro sem qualquer dualidade. Para os alemães, eles deveriam ser fiéis ao Estado brasileiro e portarem-se como cidadãos exemplares, porém, para eles, esta idéia não seria incompatível com a permanência do nacionalismo alemão. Seyferth (1981, p. 59) resume a questão do patriotismo afirmando que

[...] os teuto-brasileiros, porque adquiriram a cidadania brasileira, não se distinguem dos outros brasileiros no que diz respeito aos direitos e deveres do cidadão. Por outro lado, se consideram parte de uma totalidade representada pela nação alemã ou, usando o termo preferido pelos redatores dos jornais, pelo Volk (povo ou raça) alemão, embora politicamente estivessem vinculados ao país do qual são cidadãos. A lealdade política é invariavelmente exemplificada pelo número de voluntários teuto-brasileiros que participaram da guerra do Paraguai e pela presença de elementos de origem alemã na vida política e administrativa do país.

Este envolvimento patriótico ligado à rara presença de elementos africanos e indígenas nos espaços de comando da burocracia estatal, aliado a sua idéia de superioridade deve ter sugerido que os mesmos deveriam ser assimilados e comparáveis às “raças fracas”. Mas, para os alemães, sua superioridade racial os colocaria em pé de igualdade com os portugueses e, se estes não estão em Portugal e falam este idioma, os alemães poderiam falar seu idioma sem problema, igualando-se assim aos descendentes de portugueses que não falam um idioma brasileiro, e que também são cidadãos do Brasil. Os africanos e nativos (índios) teriam cultura fraca e por isso teriam cedido ao uso do idioma português, o que não seria o caso dos alemães.

Estas incompatibilidades marcam o conceito de Deutschtum – conceito explanado por Giralda Seyferth – no Brasil, sendo o Brasilianischer Deutschtum, portanto, a idéia dual de que se poderia ser nacional da Alemanha conservando seu idioma, cultura e lealdade ao Imperador e ao mesmo tempo ser cidadão do Estado brasileiro, atendendo aos aspectos políticos deste sem que se renunciasse ao seu idioma, lealdade ao Imperador e não se submetesse à cultura portuguesa como fizeram os indígenas e africanos.

Compreendendo a especificidade do Brasilianischer Deutschtum, analisa-se a seguir a estrutura e temáticas que o jornal propôs aos leitores brusquenses que liam em alemão.

Estrutura e temáticas

O jornal circulou em idioma alemão sob o nome de Brusquer Zeitung do dia 1º de janeiro de 1912 até xx de xx de 1917 quando foi determinada a suspensão de publicações em idioma alemão, pelo Governo do Brasil, devido à declaração de guerra à Alemanha. Sua versão em língua portuguesa, que circulou paralelamente à versão portuguesa, denominava-se “Gazeta Brusquense” foi publicada entre os anos 1914 e 1927, tendo sobrevida de 10 anos em relação à sua versão em idioma alemão.

Desde o seu primeiro número o jornal estampa seu nome no topo, ao centro, tendo ao seu lado esquerdo a informação de que sua circulação é semanal realizada sempre aos sábados, excetuando-se o primeiro número que fora publicado num domingo. Ao lado direito do título, é mostrada a informação a respeito do valor do anúncio no valor de 100 réis para a linha pequena dividida em 4 partes. Para o anunciante que repetisse a propaganda seria ofertado um generoso desconto. É de se observar a preocupação de que o jornal fazia questão de deixar claro aos anunciantes que a propaganda era feita mediante pagamento em dinheiro e sem exceção.

Abaixo do título o jornal estampa a frase “Organ zur Förderung der Interessen Brusques” que em tradução literal significa “Órgão em defesa dos interesses de Brusque”. A partir do 4º número é colocada a frase “Staat Santa Catharina” abaixo da anterior, mantendo esta estrutura até o fim do ano. Um jornal do Estado de Santa Catarina destinado a defender os interesses de Brusque. Pergunta-se: Quais seriam, então, estes interesses que o jornal defenderia?

Para que seja respondido este questionamento faz-se necessária a análise de sua estrutura de comunicação. Tendo o formato de 4 páginas e o cabeçalho fixo, no formato já descrito, o jornal tinha basicamente uma manchete principal na primeira página que se seguia às notícias do exterior (Ausländ. Nachrichten), notícias dos Estados brasileiros (Bundesstaaten/Inland), reservando a última página para anúncios.

Aparecem esporadicamente outros espaços no jornal: as notícias do campo (Landwirtschaftliches); o “canto humorístico” (Humoristische Ecke); bem como publicações de trechos de romances – normalmente encartados em um suplemento junto com o jornal ou raramente dentro de suas 4 páginas; notas oficiais ou editais (estes, em língua portuguesa); classificados e; também as notas de registro civil (falecimento, casamento e nascimento).

Hauptnachrichten: a manchete principal

Quanto à chamada principal, das 53 edições analisadas em 45 delas havia somente uma manchete principal, tendo outras 8 edições duas ou até três manchetes. Destas manchetes, um total de 16 estão relacionadas à Alemanha; 16 a assuntos locais ou ao Brasil; 4 aos Estados Unidos e Inglaterra e 2 cada uma à França, Itália, Europa, Ásia e Bálcãs.

Quando se fala de Alemanha, as principais notícias dividiram-se entre as temáticas do campo econômico, político e militar da Alemanha. Já com relação ao Brasil, e também quanto ao aspecto local as principais notícias, trataram do quotidiano (volta às aulas), economia (indústria e agricultura), efemérides (4 de Agosto e 7 de Setembro), infra-estrutura (energia e transporte) e figuras políticas de renome (Lauro Müller e Rio Branco). Portanto, guardam semelhança quanto à temática expressa os aspectos políticos e econômicos, ainda que distintas as abordagens. Também é abordada a visita do médico alemão Dr. Wolff ao Instituto Butantã, na busca por um antídoto brasileiro contra a mordida de cobra.

Sobre os Estados Unidos da América e o Reino Unido (Inglaterra) o assunto é predominantemente a política, seja ela interna quando se refere ao período eleitoral dos Estados Unidos ou sobre a tendência pró-germanista do primeiro Ministro Britânico Grey ou externo quando fala das ameaças imperialistas tanto dos Estados Unidos quanto da opressão imposta pela Inglaterra aos alemães.

Em artigo intitulado “Brasilien u. Nordamerika” é abordada a política externa norte-americana e seu projeto imperialista, que fica evidententemtne explícita quando transcrevem as palavras do chefe de Estados dos EUA, Elihu Root, que em tradução literal foi “América para os Americanos, disse ele; América para os Norte-Americanos, assim pensou ele”[7]. Ainda, sobre os Estados Unidos, o jornal transcreve uma notícia sobre o “24 de Março”, dedicado à veneração da germanidade (Deutschtum) no estado da Califórnia. Não ignoram ter por lá, também, alemães como eles.

Quanto à Inglaterra, o principal responsável pelo atraso sofrido pela Alemanha, são dedicadas notícias que versam sobre sua supremacia naval no Mediterrâneo e sua tirania e luta contra a Alemanha. Ressalta-se a grande luta da Alemanha contra a opressão sofrida, pois “Todos, seguindo a Alemanha, lutaram contra a tirania dos tempos de Roma a Napoleão”[8]. Enfim, sem esquecer a França, a notícia associa a Inglaterra a este país, tido como inimigo em comum, a fim de ressaltar o caráter de coesão grupal.

A França aparece também de maneira pejorativa. Fala-se da viagem do Ministro-presidente Poincaré à Rússia e da sua frota naval que inicia com a frase do Ministro da Marinha, Delcassé dando conta de que “A frota está pronta, finalizada!”. Na edição nº 51, de 14 de dezembro de 1912, o jornal retifica a notícia publicada pelos jornais franceses dando conta de que o exército turco comandado pelos alemães teria sofrido uma derrota.

É interressante notarmos que muitas destas notícias foram transcritas ou baseadas em outros jornais, embora somente alguns sejam citados rara e nominalmente como o “Daily Chronicle”. A manchete de primeira página do dia 31 de agosto de 1912 inicia com “Der “D.Z.” S.P. entnehmen wir:”, ou seja, “do Jornal Alemão de São Paulo concluímos que...”.

Por telégrafo ou através de notícias veiculadas em outros periódicos é que chegam as informações conforme, indefinidamente, começa a notícia principal de 6 de julho de 1912 “Os últimos jornais procuram noticiar que...”[9]. Quando aborda o posicionamento “Pró-Alemanha” do ministro britânico Grey, relata (em tradução literal) que “Um conhecido jornal londrino já veiculou um anúncio sobre essa mudança das ...”[10].

Em 11 de maio de 2011 a principal notícia versa sobre os cabos dos telégrafos, sobretudo sobre a ligação direta da Alemanha com o Rio de Janeiro. Esta façanha faria com que as notícias provenientes da Alemanha não sofressem mais modificações de acordo com os interesses dos escritórios de telégrafo da Inglaterra, por onde as mensagens dos telégrafos circulavam anteriormente até seu destino final. A comunicação direta entre Alemanha-Rio de Janeiro era importante uma vez que

O laboratório da escritura tem como função “estratégica”: ou fazer que uma informação recebida da tradição ou de forma que se encontre aí coligida, classificada, imbricada num sistema e, assim, transformada; ou fazer que as regras e os modelos elaborados nesse lugar excepcionalmente permitam agir sobre o meio e transformá-lo. (CERTEAU, 1994, pág. 226)

Numa guerra de propaganda, conhecer o discurso do inimigo é fundamental para colocar a opinião pública contra ele. O monopólio na disseminação das notícias pode ter gerado a manipulação das informações disseminadas pelo periódico, muito embora, conforme afirma Darton (1990, pág. 36), “os grandes acontecimentos possibilitam a reconstrução social da realidade, o reordenamento das coisas-como-elas-são, de modo que passam a ser vividas não mais como dadas, e sim como desejadas, conforme o que se julgue que devam ser”.

De modo geral, nas manchetes de abertura do jornal acaba sendo manifestado o engajamento com o Brasilianischer Deutschtum, ou seja, a germanidade brasileira. Neste jornalismo engajado, uma boa parte das fontes são alemãs (embora ocultadas) e, quando não o são, sofrem críticas e são desqualificadas como tendenciosas ou propagadoras de mentira.

Ausländ. Nachrichten[11]

Segunda página, a transição entre as notícias do estrangeiro e as notícias dos Estados nacionais, em 1912.
Fonte: Brusquer Zeitung, arquivado em SAB
Seguindo da ordem de leitura, as notícias do estrangeiro, ou “Ausländ. Nachrichten”, forneciam informações de diversos países de maneira sintética. Neste espaço os países europeus figuraram 237 vezes, os países asiáticos e americanos respectivamente 45 e 42 vezes e os países africanos apenas 6 vezes. No quadro abaixo apresentamos a distribuição dos 9 países que tiveram maior incidência.
Notícias em “Ausländ. Nachrichten”
Fonte: Brusquer Zeitung, arquivado em SAB
Terceira página, finaliza as notícias locais.
Fonte: Brusquer Zeitung, arquivado em SAB
A Alemanha figura no espaço do “Ausländ. Nachrichten” em 100% das edições, tendo muitas vezes várias notas dentro do tópico que lhe foi reservado. Na segunda posição aparece a França (71,70%) seguida pela Inglaterra (58,50%), Itália e Império Áustro-Húngaro (54,70%); Estados Unidos (35,84%); Turquia e Rússia (30,18%) e China (24,52%) tendo as outras nações sido abordadas numa freqüência menor.

A priori, a idéia de estar a Alemanha classificada como país estrangeiro soa estranho. Mas, analisando a primeira parte deste artigo, vê-se que havia no Brasilianischer Deuschtum uma tentativa de discernir entre o sentimento nacional e o vínculo de cidadania. Esta idéia era fundamentada, como visto, no romantismo alemão que via o Estado-nação como elemento dispensável à idéia de nação.

Diante disto, o Estado-nação alemão, muito embora esteja contido na idéia de nação, por si só, não o representa em sua totalidade já que em outro Estado (Brasil) há também uma parcela desta nação de alemães que são cidadãos deste Estado, o que faz com que o Estado-nação alemão seja de fato uma unidade política estrangeira pela ausência de vinculação política (cidadania) com este, mesmo que integrante da nação alemã.

As notícias que tratam da Alemanha são em sua maioria de caráter político. Outro assunto bastante explorado quando se fala em Alemanha é seu poderio naval, noticiando, inclusive, que navios alemães aportam no Brasil, como ocorreu nos portos de Santos e São Francisco do Sul.

Em segundo plano aparece a França. Conforme visto na primeira parte, a historiadora Giralda Seyferth afirmara que a França havia sido trocada pela Inglaterra como principal adversária justamente pela concorrência industrial e, sendo esta última, um empecilho ao crescimento colonialista da Alemanha. Por ser o primeiro ano da publicação não podemos falar em substituição muito embora pela análise possamos afirmar que havia uma equiparação. A resistência à França pode ser fruto da região de onde partiram os colonizadores de Brusque. Cabral[12] afirma que

O contrato estabelecido com a firma Steinmann & Cia, de Antuérpia, enviava para Brusque novas levas, sucessivas, próximas umas das outras, de imigrantes, numa evidente prova de que a propaganda feita pela mesma nos países da Europa central era eficiente. Colonos originários de Endem, de Oldenburg, da Renania, do Holstein, da Baviera, de Baden continuavam a desembarcar na Barra do Rio, tomando o caminho da Colonia Itajaí, aumentando o seu potencial humano e, iniludivelmente, as preocupações e os trabalhos do velho Barão. Sobre esta propaganda, aliás refere-se de maneira bastante elucidativa Emílio Willems, que em Brusque mesmo, faz alguns anos, colheu dados para demonstrar o seu poder de penetração entre as populações germanicas. Não subestima o ilustre que nas regiões mencionadas do sul e sudoeste da Alemanha, depois de cada colheita má, principalmente na Badenia e no Palatinado, a fome forçava milhares de sitiantes alemães a emigrarem, tornando-os uma presa fácil de agentes estrangeiros. Não esconde que a divisão territorial, a fragmentação da propriedade rural nas repetidas sucessões, levava muitas vezes à miséria, quando não a uma situação de dependencia do primogenito, a quem se transmitia a propriedade. Estas situações levavam à emigração.

Ressalta-se que algumas notícias relacionadas à França versam sobre o conflito deste país com a Itália, uma possível tentativa de construir um inimigo em comum e buscar a coesão ao Brasilianischer Deutschtum já que alguns italianos, conforme Seyferth (1981, p. 14) falavam o idioma alemão. Com isto, formava-se a unidade lingüística e enfrentamento de um inimigo em comum – requisito ao Deutschtum. Outros assuntos abordados sobre a França estão relacionados à política de seus ministérios, às forças armadas (marinha e aeronáutica) e sua dominação na Indochina.

Na sequência aparece a Inglaterra, a grande vilã das mazelas por quais passava a Alemanha. Nestas notícias o jornal informava sua interferência em suas colônias, as notícias de seu ministério de guerra e seus atos de espionagem na Alemanha.

Quanto à Itália e Áustria-Hungria a informação era quase sempre positiva e versavam sobre o conflito em Tripolis. Aliás, os conflitos advindos do colonialismo tomavam boa parte destas notícias.

Sobre os Estados Unidos da América aparecem notícias de várias temáticas. De incêndio em Nova York à sua tecnologia naval e aeronáutica bem como sua influência na questão do Canal do Panamá. Por último aparece a China, saqueada pelas potências européias e mergulhada em guerra civil vira notícia constantemente.

Incidência de assuntos em 1912.
Fonte: Brusquer Zeitung, arquivado em SAB
Portanto, além da notícia principal que conquistava o leitor à causa alemã, as notícias do estrangeiro forneciam ao leitor brusquense um panorama sobre os conflitos mundiais sob a ótica alemã e ao mesmo tempo buscava cooptar os leitores de origem étnica italiana, estabelecidos no município, a partilharem da causa do Brasilianischer Deutschtum por meio do sentimento pró-Alemanha e também pela repulsa aos inimigos em comum, como o caso de França e Inglaterra. Segundo Certeau [13] “As coisas que entram na página são sinais de uma ‘passividade’ do sujeito em face de uma tradição; aquelas que saem dela são as marcas do seu poder de fabricar objetos”.

Quanto às 298 notícias e notas sobre o quotidiano local[14] (Lokalnachrichten) vimos que as temáticas de sociedade, registro civil, informes gerais, cotidiano, informes do jornal e de personalidades dominam o noticiário. Num segundo momento destacamos as notícias do campo. As de clubes, festas, educação, artes e por último as relacionadas aos problemas vivenciados como as que envolviam a colonização, a ferrovia (infra-estrutura), os correios, as enchentes e energia elétrica. A tabela ao lado resume os dados:


Com a tabela vimos que é maior a incidencia em notas gerais sendo que as notícias que requeiram uma crítica e um debate aprofundado afim de solucionar os problemas aparecem em menor número.

Quando à questão social, agrupou-se as notícias relacionadas ao registro civil e de festejos de bodas. Nos informes gerais apareceram as notícias relacionadas às visitas à redação do jornal bem como retificações de informações divulgadas, cumprimentos a outros órgãos de imprensa e de visitantes ao município de Brusque.

No cotidiano destacamos o ataque sofrido pela Senhora Knihs por uma vaca, a morte de peixes no Itajaí-Mirim causadas por dinamite e as polêmicas envolvendo um ataque de um cachorro no centro da cidade ao filho do Senhor Anton Schwartz e a prestação de contas de um bazar realizado na cidade. Quanto às personalidades, aparecem figuras de destaque como Barão do Rio Branco, o Imperador Guilherme II da Alemanha e as autoridades de expressão local: Carlos Renaux, Vicente Schaefer, João Bauer, Georg Boettger e outros que visitaram Brusque. O jornal utilizou-se muito do espaço das notícias locais para tratar de assuntos relacionados a sua circulação.

Sobre o campo destacamos a praga bovina que das cidades litorâneas acabou vindo pela localidade do Moura, atingindo Botuverá (na época Porto Franco) até atingir Brusque. Foram várias as notícias sobre a peste bovina, inclusive, acometendo-se dela o jumento do Pastor Lindgens.

Em relação à política o destaque se deu às trocas de cargos e às eleições para deputado e senador – com forte apoio a Lauro Müller. Quanto às obras, o destaque ficou por conta da construção da Ponte Vidal Ramos. A ferrovia também foi fruto de notas cheias de expectativas e esperanças. Esta ligaria Blumenau a Itajaí e este município a Brusque.

As enchentes e a ajuda da Alemanha, ressaltando que não importa se o habitante de Brusque fosse italiano, polonês ou brasileiro – a Alemanha ajudaria. Quanto à saúde destaca-se as tentativas de curas, a disenteria e outras doenças. Na temática religiosa além da visita ou ações de religiosos, o destaque ficou com as comunhões.

Os correios ganham destaque devido à polêmica nas primeiras edições sobre a deficiência do serviço portal que no fim tem seus dias e horários publicados com antecedência, passando a funcionar, ao que tudo indica, com certa regularidade.

Este trabalho foi desenvolvido a partir de uma pesquisa documental com base no jornal Brusquer Zeitung, disponível no Museu e Arquivo Histórico do Vale do Itajaí-Mirim (Casa de Brusque), no município de Brusque-SC. Num primeiro momento realizou-se um levantamento bibliográfico em livros e também em artigos científicos na internet que tratassem a temática da imprensa teuto-brasileira em Santa Catarina passando a elaboração do questionamento da pesquisa e análise dos jornais no ano de 1912 com a tabulação das manchetes e temáticas das notícias em uma planilha e classificação por áreas temáticas/assuntos.

De um modo geral o jornal cumpre seu papel de defender o interesse de Brusque já que nesta época Brusque compunha-se em sua grande maioria de imigrantes de origem alemã ou italiana.

Considerações Finais

Quarta página, anúncios.
Fonte: Brusquer Zeitung, arquivado em SAB
A germanidade brasileira é um sentimento cultivado por emigrantes que tiveram em seu país de origem a formação recente do Estado nacional (Alemanha e Itália) em que o principal fator de coesão é identificado como a língua e união em torno de um inimigo em comum. Esta germanidade, ou Deutschtum, acabou ganhando contorno do Brasilianischer Deutschtum, ou seja, uma germanidade brasileira em que uma parcela de imigrantes italianos acaba aderindo à cultura germânica compartilhando alguns signos em comum – tendo feito neste sentido o jornal a contribuição para a coesão grupal.

Vimos que o jornal procura num primeiro momento fornecer ao leitor um panorama dos acontecimentos mundiais seja por sua manchete principal ou pelas notícias do exterior, passa a analisar os acontecimentos nos Estados e depois os acontecimentos locais. Percebemos uma certa sintonia entre o Deutschtum e as temáticas abordadas no ambito internacional porém identificamos que o Brasilianischer Deutschtum cooptou também os elementos de etnia italiana e o demonstra por meio das notícias positivas em relação à Itália bem como a seleção de notícias que demonstrem aos elementos italianos que sua pátria de origem tem inimigos em comum com os alemães (França e Inglaterra).

Também é mostrada a sintonia entre os monarcas dos dois países, o que ressalta a coesão destes elementos diaspóricos tem torno de um sentimento em comum, tendo, ressaltando-se a língua também como elemento comum. Diante do exposto recomenda-se a análise dos jornais de 1913 a 1917 afim de analisar se houve ou não intensificação no ataque aos países aliados.

Considerando que muitos imigrantes ditos alemães vieram de regiões como Baden e Schleswig-Holstein, que aderiram à causa da Prússia tardiamente ou foram conquistadas, faz-se um questionamento do real engajamento destes descendentes. Teria ocorrido, como ocorrido nos tempos da política de Bismarck, um apelo étnico frente ao inimigo em comum (Inglaterra) e a imprensa brasileira (possivelmente manipulada pela imprensa de guerra anglo-americana)?


Referências

  1. GEVAERD, Ayres. A Imprensa Brusquense. In: ÁLBUM DO CENTENÁRIO DE BRUSQUE. 1960. Brusque: Edição da SAB, 1960. p. 293.
  2. SEYFERTH, Giralda. Nacionalismo e identidade étnica. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1981. p. 49.
  3. Idem., Ibidem., p. 49
  4. Idem., Ibidem., p. 49
  5. GEVAERD, Ayres. op. cit. p. 293.
  6. Germanidade brasileira, em tradução livre.
  7. No original: “Amerika den Amerikanern, so sprach er; Amerika den Noramerikaner, so dachte er”, Brusquer Zeitung. Edição nº 3 de 13 de janeiro de 1912, p.1.
  8. No original: “Alle Kämpfe gegen die Tyrannei Von der Römerzeit bis auf Napoleon sind Von den Deutschen ausgegangen”. Edição nº 21 de 18 de maio de 1912, p.1.
  9. “Die letzten Zeitungen brachten uns die Nachricht, dass die...”.
  10. “Eine bekannte Löndoner Zeitung setzt diese Wendung bereits dem neuen deutschen Botschfter Marschall v. Bieberstein auf sein Verdienstkonto”. Brusquer Zeitung, Ed. Nº 34 de 17 de agosto de 1912. Pág. 1.
  11. Notícias estrangeiras, em tradução livre.
  12. CABRAL, Oswaldo Rodrigues. Brusque: Subsídios para a história de uma colonia nos tempos do Império. Brusque: Sociedade Amigos de Brusque, 1958. p.47.
  13. CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 226.
  14. Algumas notícias categorizadas com uma temática com baixa incidência não foram consideradas portanto o número de 298 para o geral é correto apesar de na soma dos temas apresentados não coincidir o resultado.
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