Entrevista Luciano Pedro Estevão - Luiz Gianesini

De Sala Brusque Virtual

Nome completo: Luciano Pedro Estevão

local e data de nascimento: Porto Belo em 04/ 09/ 1967

filiação: Pedro João Estevão e Azucélia Maria Machado Estevão

cônjuge: Lenita Novaes

nome de filhos: Nenhum.

Cargo: Psicólogo. Coordenador do Centro de Referência em Assistência Social-CRAS

Como foi sua infância?

Ótima. Nasci em Canto Grande. Filho de uma portuguesa misturada com índia e de um português misturado com belga. Sou o 13º filho da D. Zuca e o 25º filho do seu Pedro. Uma comunidade de pescadores. Praia de todos os lados. Quase uma ilha. Andava, corria, mergulhava e nadava o tempo todo e nas horas vagas era aconchegado por uma super mãe e mais dez mulheres. E nas horas de aperto empurrado por 3 homens. Muito ar puro, brisa do mar, peixe e frutos do mar todo dia, frutas do pomar, quintal para brincar. Tudo de Bom. Um belo dia fugi de casa para não ser pescador profissional e poder fazer aquilo que mais gostava: estudar.

Sonho de criança?

Ser professor educador e ajudar a humanidade

Como foi sua juventude?

Minha juventude foi conflituosa pela mudança de cidade, morte do pai, timidez e alguns anos em colégio interno onde a ditadura do sistema e a solidão me ensinaram que não se pode perder tempo na vida pois ela é mutável, curta e indecifrável. Aprendi a ser quem eu sou e aproveitar cada instante me ajudando e ajudando os outros.

Pessoas que influenciaram?

Todas que se relacionaram de perto comigo. Tenho um pouco de cada um. Não dá pra citar pois faltaria espaço.

Formação escolar (onde estudou desde o início?

Ensino Fundamental 1ª a 4ª série: Escola Isolada de Canto Grande;

Ensino Fundamental 5ª a 8ª série: Escola Básica Tiradentes;

Ensino Médio: Curso técnico em Agropecuária no Colégio Agrícola de Camboriu;

Ensino Superior: Graduação em Letras (Língua Portuguesa, Língua Inglesa, Literatura Brasileira e Literatura Portuguesa). UNIVALI e Graduação em Psicologia pela UNIVALI;

Pós Graduação: Especialização em Psicologia da Educação-UNIVALI;

Especialização em Psicologia de Perícia e Avaliação de Trânsito- FEHH

Especialização em Psicodrama- CONTEXTO;

Mestrado em Psicologia- UFSC

Como veio para Brusque?

Vim em 2009 para o Projeto do natal com os grupos de Idosos da Secretaria de Assistência Social e em virtude deste trabalho fui convidado pela Secretaria de Assistência Social e Habitação para trabalhar como psicólogo e coordenador de Assistência Social. Assim iniciei em março.

Lembra da primeira professora?

Sim. D. Noêmia. Grande mestre, educadora e poetisa até hoje.

Uma grande professora?

Muitas: Noêmia, Vera, Laureci, Nair, Andréia, Almir, Kátia,...

Como conselheiro do Conselho Municipal Antidrogas -COMAD,vê o Conselho Municipal trilhando no caminho certo?

Penso que sim. Acabei de entrar, então ainda não conheço o suficiente para avaliar. Porém acredito nas pessoas e no comprometimento delas com a causa.

Quais são as atividades desenvolvidas no COMAD de Brusque?

O COMAD desenvolve eventos relacionados as drogas, debate o assunto nas plenárias, Fiscaliza as instituições governamentais e não governamentais que trabalham com esta demanda e está sempre a disposição para dialogar sobre o tema. O crack ignora classes sociais, já não seria apenas consumido só nas localidades da periferia? Com certeza. Apesar de ainda o maior número de consumidores ser de uma classe menos favorecida, atualmente o crak alcança todo aquele que por um segundo resolve experimentá-lo

O crack pode mesmo viciar no primeiro uso?

Sim. Mas Não é que seja no primeiro uso. O que acontece é que raríssimos usuários conseguem consumir apenas uma pedra no primeiro uso. Geralmente consomem de 3 a 6 pedras e é isso que proporciona um nível de dependência maior e mais rápido. A fumaça produzida pelo crak chega ao sistema nervoso central em aproximadamente 10 segundos e seu efeito de euforia e alucinação dura em média de 3 a 10 minutos e depois disso o efeito depressivo toma conta, o que leva o usuário a fumar mais e mais. Um Outro fator é que o Crak é feito a partir da forma impura da cocaína, ou seja, os restos mortíferos da mesma que é misturada ao bicabornato de sódio o que transforma a pedra num estalo mortal. Aliás o nome crak é derivado da palavra quebrar e tem este nome devido aos estalos que a Pedra vai dando durante o seu uso. É uma droga potente e maléfica ao cérebro.

Que sequelas definitivas o crack deixa no usuário? conhece casos de quem se recuperou?

Há raríssimos casos de recuperação total da droga. Precisa de um tratamento longo e muita fora de vontade do usuário, da família e mudança total de comportamento. As seqüelas deixadas pelo Crak são:

  • Euforia mais forte do que o da cocaína;
  • Após o efeito da euforia ocorre muita depressão;
  • O que leva o usuário a usar novamente para compensar o mal-estar, provocando intensa dependência;
  • Ocorre também muitas alucinações e paranóias (ilusões de perseguição);
  • Elevação da temperatura do corpo, podendo causar um Acidente Vascular Cerebral;
  • Causa destruição de neurônios, o que leva o usuário a se alienar do mundo, se acomodar e perder o interesse pela sua vida e sociedade;
  • Provoca a degeneração dos músculos do corpo, o que dá aquela aparência característica esquelética ao indivíduo: ossos da face salientes, braços e pernas finos e costelas aparentes;
  • Inibição da fome, de maneira que os usuários só se alimentam quando não estão sob seu efeito narcótico;
  • Ocorre um excesso de horas sem dormir;
  • Seu uso freqüente e prolongado pode levar a morte.

Há necessidade de mobilização social para conter o avanço das drogas?

A mobilização social é fundamental para combater o uso e o avanço da mesma.Acredito que só com uma mobilização geral é possível a contenção.

Há profissionais que têm receio atender usuários? Soube de algum profissional que já foi ameaçado por usuários?

O atendimento clínico inicial ao usuário deve ser em grupo exatamente para não ter este problema. Após um tratamento coletivo para que ele se comprometa com o grupo (que representa a sociedade), aceite-se enquanto dependente e compreenda que não está sozinho é que se pode continuar o tratamento individual. Outra questão é que o profissional não deve atender o usuário se este fez uso antes do atendimento, pois seu comportamento estará alterado e, portanto o tratamento não fará efeito.

O estado faz-se presente quando se trata de comunidades terapêuticas? E quando faz-se presente é representativo em quantidade e qualidade?

A representatividade do estado nas comunidades terapêuticas às vezes são em quantidade e sempre com péssima qualidade, pois sua contribuição é, na maioria das vezes financeira ou documental, o que na prática os donos das mesmas não utilizam de forma adequada. Em que situação se encontram e se são suficientes para atender a demanda- os serviços de atendimento a dependentes químicos na região? Na região de Brusque os serviços para dependentes químicos quase não existem. São poucas instituições nos municípios vizinhos e os que existem são precários, pois falta metodologia terapêutica especifica e falta de profissionais especializados na área. Brusque já dispõe de CAPS -AD? Quais são as principais dificuldades que serão encontradas no atendimento aos jovens no CAPS AD? Brusque ainda não possui o CAPS AD, apesar de existir demanda para o mesmo. As dificuldades encontradas serão no que diz respeito a profissionais especializados na área.

Um resumo de sua vida profissional?

Comecei minha carreira profissional aos 15 anos como educador social trabalhando com crianças em vulnerabilidade social na cidade de Porto Belo; Em seguida comecei a lecionar Artes, Língua Portuguesa e Literatura Brasileira em vários colégios de Itajaí, Balneário Camboriu e região; Neste mesmo período comecei minha carreira como ator de teatro no grupo teatral acontecendo por ai e que atuo até hoje. Em seguida trabalhei como professor universitário na UDESC e UFSC. Em 1997 criamos o Instituto de Psicologia Sentir que é uma instituição que trabalha com saúde, educação e assistência social na qual trabalho até hoje. Portanto resumindo sou professor, educador, ator, cuidador, psicólogo e mediador de relações humanas.

Conte algo que você queria fazer e não deu certo. Aprender a voar.

Algo cômico que aconteceu na sua vida? Uma gaivota cair no meu prato num final de ano em Canto Grande

Algo que você apostou e não deu certo? Dificilmente aposto.

O que farias se estarias no inicio da carreira e não teve coragem de fazer? Montava uma escola

O que você aplica dos grandes educadores no teu dia a dia? Tudo que aprendo aplico principalmente em relação ao respeito, humildade, honestidade e amor.

Quais são suas maiores decepções e alegrias? A maior decepção é acreditar nas pessoas e levar violência com algumas, mas elas não me vencem. Continuo acreditando. Minhas maiores alegrias são muitas, não caberia aqui. Porém as maiores sem dúvida é acordar todos os dias e saber que estou vivo e saudável, a outra é ainda conviver com minha mãe de 85 anos e meus irmãos, a outra é sentir minha amada todos os dias, poder vê-la, admirá-la, cheirá-la, ouvi-la e tocá-la , e a outra é poder ajudar pessoas,...

O que você mudaria se pudesse na sua profissão? As suas bases na formação acadêmica, pois são incoerentes com a realidade profissional.

Referências

  • Jornal Em Foco. Publicado em 21 de setembro de 2010.
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